Dias diferentes, manhãs iguais

Quinta-feira, 19 de Maio de 1977

Acordei cedo.

Enquanto me preparava para sair, apercebi-me de que a rotina voltava lentamente a instalar-se.

Os mesmos gestos.

As mesmas horas.

O mesmo caminho até à nova paragem.

Era curioso como a vida continuava a repetir-se, mesmo quando tudo parecia diferente.

A viagem decorreu sem nada de especial.

Observei as ruas, as lojas que começavam a abrir portas e as pessoas que enchiam lentamente os passeios.

Cada uma levava consigo as suas preocupações.

Provavelmente ninguém imaginava as dos outros.

No liceu, a manhã passou depressa.

As aulas sucederam-se normalmente e consegui acompanhar a matéria sem grande dificuldade.

Até eu começava a estranhar aquela aparente normalidade.

Às vezes perguntava-me se, passados alguns dias, as pessoas acabavam por se habituar a tudo.

Talvez fosse isso que me estivesse a acontecer.

Não porque tivesse deixado de pensar na Dila.

Mas porque já não precisava de lutar contra esse pensamento.

Ele surgia.

Permanecia durante algum tempo.

Depois acabava por desaparecer, dando lugar às pequenas obrigações de cada dia.

Ao terminar as aulas, regressei a casa.

Passei parte da tarde a estudar e a adiantar alguns trabalhos.

Mais tarde dediquei algum tempo ao DIFI.

Havia ainda muito para preparar e começava a sentir que aquele trabalho me fazia bem.

Obrigava-me a olhar para a frente.

Quando a noite chegou, sentei-me algum tempo no meu quarto antes de apagar a luz.

Pensei que a vida raramente mudava de um momento para o outro.

Mudava devagar.

Quase sem dar por isso.

Talvez fosse por essa razão que ainda me custava perceber quem eu era depois daqueles últimos dias.

Fechei os olhos.

O dia terminava como tantos outros.

Mas, dentro de mim, continuava a procurar um caminho que ainda não conseguia encontrar.


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