Perguntas sem resposta
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Sexta-feira, 20 de Maio de 1977
Hoje acordei cedo, como em todos os dias de aulas.
Enquanto me vestia, apercebi-me de que aquela nova rotina já deixara de me parecer estranha. Os dias sucediam-se uns aos outros e eu cumpria-os quase sem pensar.
Saí de casa e apanhei o trólei.
Durante a viagem observei distraidamente as ruas por onde passava. Havia qualquer coisa de tranquilizador naquela sucessão de gestos repetidos. Talvez fosse mais fácil deixar-me levar pela rotina do que enfrentar aquilo que trazia dentro de mim.
As aulas decorreram normalmente.
Consegui acompanhar a matéria e responder às perguntas dos professores. Até os intervalos passaram sem que me sentisse particularmente inquieto.
Mas, por detrás daquela aparente normalidade, havia uma pergunta que começava a instalar-se devagar.
Porque continuava eu a evitá-la?
A resposta parecia simples.
Porque me magoara.
Porque acreditava que ela rejeitara um gesto que, para mim, tinha sido apenas um impulso de protecção.
Mas, quanto mais repetia essa explicação para mim próprio, menos ela me convencia.
Se estava assim tão certo do que acontecera, porque continuava a pensar nisso?
Porque não conseguia simplesmente seguir em frente?
Ao longo da manhã dei comigo a imaginar, pela primeira vez, que talvez nunca viesse a saber o que realmente passara pela cabeça da Dila naquele instante.
Essa ideia inquietou-me mais do que todas as outras.
Percebi então que não era apenas dela que me afastava.
Era também das respostas.
Enquanto não falasse com ela, podia continuar a acreditar naquilo que vira.
Ou naquilo que julgava ter visto.
Quando as aulas terminaram, regressei a casa.
Passei parte da tarde a estudar e depois ocupei-me de alguns assuntos do DIFI.
O trabalho ajudava-me a organizar as ideias, mas não conseguia calar completamente aquela pergunta que começava a ganhar força.
E se eu estivesse enganado?
Afastei imediatamente esse pensamento.
Não porque tivesse encontrado outra resposta.
Mas porque ainda não me sentia preparado para o enfrentar.
Ao deitar-me, ocorreu-me que, durante toda a semana, fizera tudo para evitar um encontro.
Talvez estivesse a conseguir.
Mas começava a perguntar-me se fugir era, afinal, muito diferente de perder.
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