Silêncio Pesado

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Sábado, 21 de Maio de 1977

Hoje acordei sem pressa.

Era sábado e, pela primeira vez naquela semana, não precisava de pensar na hora do trólei nem nas aulas.

Pensei que talvez aquele dia me permitisse descansar um pouco.

Mas depressa percebi que nem sempre é o corpo que precisa de descanso.

Depois do pequeno-almoço fui tratando de algumas coisas em casa.

Li um pouco.

Arrumei alguns papéis.

Tentei ocupar o tempo da melhor maneira.

Mesmo assim, havia momentos em que tudo parecia parar.

Era então que os pensamentos regressavam.

Não ao episódio do guarda-chuva.

Esse já não precisava de ser recordado.

Permanecia comigo como uma fotografia que nunca chegara a sair do lugar.

O que agora me ocupava era outra coisa.

Perguntava-me porque continuava a evitar um encontro que, durante tantos meses, fora a melhor parte dos meus dias.

Se estava convencido de que tinha razão, porque não conseguia agir com naturalidade?

A pergunta surgia.

Ficava durante algum tempo.

Depois desaparecia sem resposta.

Ao longo da tarde encontrei-me com alguns colegas do DIFI.

Continuámos a conversar sobre os preparativos da exposição e sobre outras ideias que iam surgindo.

A presença deles fazia-me bem.

Enquanto discutíamos projectos, conseguia esquecer-me de mim próprio.

Mas bastava regressar a casa para o silêncio voltar a instalar-se.

Ao princípio da noite sentei-me junto da janela do meu quarto.

Olhei demoradamente para a rua.

As pessoas passavam, indiferentes umas às outras.

Pensei que, muitas vezes, bastava um mal-entendido para mudar completamente a maneira como olhávamos alguém.

Logo a seguir tentei afastar essa ideia.

Talvez nem tivesse sido um mal-entendido.

Talvez as coisas fossem exactamente como eu imaginava.

Mas, pela primeira vez, já não conseguia afirmá-lo com a mesma certeza.

Deitei-me tarde.

Antes de adormecer ocorreu-me que, mais cedo ou mais tarde, deixaria de poder fugir.

Não sabia quando.

Nem sabia como.

Sabia apenas que aquele silêncio não podia durar para sempre.


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