Um dia luminoso
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Quarta-feira, 11 de Maio de 1977
Quando cheguei à paragem, a Dila já olhava para o relógio.
Assim que me viu ao fundo da rua, levou teatralmente as mãos à cintura.
— Finalmente!
Aproximei-me a correr.
— Cinco minutos.
— Sete.
— Cinco.
— Sete.
Sorri.
— Então ficamos pelos seis.
Ela não conseguiu evitar o riso.
— Está bem. Mas amanhã és tu que esperas.
Subimos para o trólei ainda divertidos com aquela discussão sem importância.
As manhãs tinham adquirido uma naturalidade que nenhum de nós alguma vez imaginara. Já não havia o nervosismo dos primeiros tempos, nem o embaraço das primeiras conversas. Tudo acontecia espontaneamente. Bastava estarmos juntos.
— Sabes uma coisa? — perguntou ela.
— O quê?
— Ontem fizeste-me falta.
Olhei para ela.
— Eu?
— Sim.
— Mas eu fui esperar-te.
Ela fez uma expressão de quem acabara de se lembrar.
— Pois foi... esqueci-me completamente. A professora de Português reteve-nos depois da aula. Quando saí, já não estava ninguém.
Fiquei imediatamente descansado.
Era uma explicação tão simples que me ri.
— E eu imaginei meia dúzia de desgraças.
Ela abanou a cabeça.
— Tu complicas tudo.
— É um defeito.
— É.
Sorriu.
— Mas já me habituei.
A viagem prosseguiu entre pequenas brincadeiras. Comentámos colegas, professores, histórias antigas. Às tantas começámos a inventar diálogos para algumas pessoas que víamos pela rua. Sempre que um passageiro subia com um ar demasiado sério, imaginávamos-lhe uma vida completamente absurda.
— Aquele senhor deve ser espião.
— Qual?
— O da pasta castanha.
Ela olhou discretamente.
— Não... é inventor de guarda-chuvas.
— Guarda-chuvas?
— Sim. Repara como olha para o céu.
Desatámos os dois a rir.
Algumas pessoas voltaram-se para nós.
Tentámos conter-nos.
Foi pior.
Chegámos ao Porto ainda a rir.
Como ainda faltava algum tempo para a primeira aula, em vez de entrarmos logo, caminhámos devagar pelo passeio fronteiro aos edifícios.
Falamos de tudo.
Do Verão.
Das férias.
Dos livros que queríamos ler.
Dos lugares onde gostávamos de passear.
Não havia qualquer assunto importante.
E, talvez por isso, tudo parecia importante.
Quando finalmente nos despedimos, ela disse:
— Hoje o dia começou bem.
— Ainda agora começou.
— Então que continue assim.
Vi-a entrar no liceu e só depois segui para o meu.
Durante um furo levei os apontamentos de Matemática para junto da linha do caminho-de-ferro. Gostava de estudar ali. Os comboios passavam de tempos a tempos, interrompendo o silêncio durante alguns segundos. Quando desapareciam, tudo voltava à tranquilidade.
O exercício correu-me melhor do que esperava.
À saída fui esperá-la.
Desta vez apareceu quase imediatamente.
Assim que me viu, abriu os braços num gesto exagerado.
— Hoje não te fiz esperar!
— Nem um minuto.
— Estou a melhorar.
Começámos a viagem de regresso.
Foi talvez uma das viagens mais alegres que alguma vez fizemos.
Brincávamos com tudo.
Inventávamos histórias sobre os passageiros.
Discutíamos qual dos dois tinha pior memória.
Ela acusava-me de ser distraído.
Eu respondia que era ela quem nunca sabia onde deixava os livros.
— Isso é mentira!
— Então quem passou uma aula inteira à procura do caderno que estava dentro da pasta?
Ela levou as mãos ao rosto.
— Não te vais esquecer disso nunca, pois não?
— Nunca.
Voltou a rir.
Ao descermos do trólei continuámos o caminho sem qualquer pressa.
O sol atravessava por entre a folhagem das árvores e deixava manchas de luz e sombra no passeio.
— Sabes... — disse ela de repente.
— Hum?
— Gosto destes bocadinhos.
Olhei para ela.
— Eu também.
— Às vezes parecem demasiado curtos.
Não respondi.
Também eu sentia isso.
Chegámos à esquina onde habitualmente nos despedíamos.
Ficámos ainda alguns instantes sem razão para nos irmos embora.
Era um daqueles silêncios que não pediam explicações.
Depois ela sorriu.
— Até amanhã.
— Até amanhã.
Vi-a afastar-se.
Por qualquer motivo, continuei a olhar até desaparecer completamente da minha vista.
Cheguei a casa com uma leveza difícil de explicar.
Almocei e, como o cansaço da semana começava a fazer-se sentir, deitei-me um pouco. Acordei já perto das sete e meia.
Depois do jantar sentei-me a ver futebol na televisão. Quando o jogo terminou, continuei a ver outro programa até ao fim da emissão.
Antes de apagar a luz, recordei a manhã e a viagem de regresso.
Sorri sozinho.
Havia dias que pareciam feitos apenas de pequenas alegrias.
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