Uma ausência...
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Terça-feira, 10 de Maio de 1977
Levantei-me um pouco mais tarde do que era costume.
Enquanto me vestia, olhei várias vezes para o relógio. Ainda assim, consegui chegar à paragem antes da Dila. Não esperei muito. Vi-a aparecer ao fundo da rua, a caminhar depressa.
— Afinal hoje chegaste primeiro.
— Milagre.
— Aproveita. Não acontece muitas vezes.
Sorri.
— Vou guardar este dia na memória.
Entrámos no troleicarro quase a correr.
A viagem decorreu entre brincadeiras e pequenas conversas. Falámos dos testes da semana, das notas que esperávamos ter e de um professor que parecia acreditar que os alunos não tinham vida para além da escola.
— Um dia ainda lhe pergunto se ele nasceu professor — disse eu.
Ela riu-se.
— Não tenhas coragem.
— Tenho.
— Não tens nada.
— Queres apostar?
Olhou para mim com um sorriso de desafio.
— Não. Porque depois és capaz de fazer mesmo.
Continuámos a rir até chegarmos aos liceus.
Antes de nos separarmos, ela voltou-se.
— Até logo.
— Até logo.
Passei a manhã entre aulas e um exercício de Matemática que me deixou menos satisfeito do que esperava. No último tempo tive um furo e, como acontecia algumas vezes, fui com dois colegas até junto da linha do caminho-de-ferro.
Gostava daquele sítio.
Os comboios passavam com um estrondo que fazia estremecer o chão e, durante alguns segundos, parecia que tudo o resto deixava de existir. Ficávamos ali sentados a conversar sobre a escola, sobre livros, sobre o futuro e, por vezes, sobre coisa nenhuma.
Quando chegou a hora da saída, despedi-me deles e fui esperar a Dila.
Encostei-me ao muro habitual.
Os alunos começaram a sair.
Vi rostos conhecidos.
Vi colegas.
Vi professores.
Mas a Dila não aparecia.
Esperei mais alguns minutos.
O movimento foi diminuindo até o portão ficar praticamente vazio.
Olhei para o relógio.
Talvez tivesse ficado a conversar com alguma colega.
Esperei um pouco mais.
Nada.
Acabei por iniciar sozinho o caminho para a paragem.
Pelo caminho imaginei várias explicações. Talvez tivesse saído por outra porta. Talvez tivesse apanhado um trólei mais cedo. Talvez tivesse surgido algum assunto inesperado.
Não havia motivo para preocupação.
Mesmo assim, estranhei.
Era a primeira vez, em muito tempo, que regressava sozinho sem saber porquê.
Quando cheguei a casa, almocei.
A minha mãe perguntou-me se se passava alguma coisa.
— Não. A Dila é que hoje não apareceu à saída.
— Deve ter tido algum motivo.
Assenti.
Era certamente isso.
Depois do almoço deitei-me um pouco. Precisava de descansar antes de sair novamente.
Levantei-me ao fim da tarde, lanchei e fui ao Porto.
Passei primeiro pela Electro Povo.
A minha irmã estava ocupada ao balcão. A Rita reparou em mim e cumprimentou-me com um sorriso tranquilo.
Conversámos apenas alguns minutos.
Ela perguntou como iam as aulas, eu respondi e desejei-lhe um bom trabalho.
Nunca aquelas visitas tiveram o significado que, mais tarde, a memória tentou dar-lhes. Eram momentos breves, quase sempre interrompidos pela entrada de clientes ou pelas obrigações de cada um.
Despedi-me e segui para a Academia.
O treino decorreu com intensidade. O corpo agradecia aquele esforço que obrigava a cabeça a esquecer tudo o resto.
Quando regressei a casa já era noite.
Jantei com a família e sentei-me algum tempo diante da televisão.
Antes de me deitar, pensei ainda na ausência da Dila.
Sorri para mim próprio.
Provavelmente, no dia seguinte, tudo se resolveria com uma explicação simples.
Há pequenas ausências que não significam absolutamente nada.
Mas, por vezes, habituam-nos à ideia de que nem sempre controlamos os encontros que julgamos garantidos.
Naquela noite adormeci sem qualquer pressentimento.
No dia seguinte, voltaria a encontrá-la.
E seria um dos dias mais felizes de toda a nossa história.
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