A serenidade dos dias comuns
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Segunda-feira, 9 de Maio de 1977
A semana começou como tantas outras.
Cheguei à paragem ainda cedo. O ar da manhã conservava uma frescura agradável e a rua ia despertando lentamente. Pouco depois apareceu a Dila. Caminhava apressada, mas, assim que me viu, abrandou o passo e sorriu.
- Bom dia Dila. Bons olhos te vejam.
- A ti também... - parou como que a fazer uma reflexão e continuou - ... estás a olhar para mim com uns olhos? Estou despenteada?
- Ah? - Perguntei.
- Perguntei... - interrompi-a.
- Eu ouvi... apenas estava... - faltavam-me as palavras, não as que o coração gritava, mas aquelas que o pudor me obrigava a conter. Continuei - ... estava a admirar-te...
- Admirar-me porquê. Estou igual a todos os dias...
- Sim, mas hoje estás... linda - balbuciei em voz baixa
- Estou o quê?
- A luz do sol por detrás de ti dá-te um ar... angelical - não consegui repetir o quanto ela estava linda.
Chegou o trólei. Entramos.
A conversa perdeu-se logo a seguir, substituída pelo movimento do trânsito que já enchia as ruas de trabalhadores e estudantes.
Ao chegarmos ao Bonfim caminhámos lado a lado até ao costumeiro ponto onde nos separávamos.
— Até logo.
— Até logo.
Durante a manhã encontrei o Manel.
Num intervalo ficámos os dois a conversar junto ao recreio. Falámos das aulas, do treino de sexta-feira e dos projectos do DIFI. Quando a campainha tocou, ele voltou para as aulas dele e eu para as minhas.
As horas passaram sem sobressaltos.
Quando terminou a última aula fui, como sempre, esperar a Dila.
Apareceu pouco depois.
— Demorei?
— O suficiente para eu pensar que tinhas fugido.
Ela riu-se.
— Nem pensar.
Começámos a viagem de regresso sentados lado a lado.
Falámos de tudo um pouco. Das notas, dos professores, das férias que pareciam ainda distantes. Havia dias em que as conversas não precisavam de assunto. Bastava uma frase para a outra surgir naturalmente.
Quando chegámos à nossa paragem, continuámos o nosso caminho a pé.
O sol aquecia sem incomodar e as árvores já estavam completamente vestidas de verde.
— Sabes? — disse ela. — Gosto desta altura do ano.
— Porquê?
— Porque parece que tudo está a começar.
Olhei em redor.
Não lhe respondi logo. Sorri ao ver a sua expressão sonhadora.
Como eu a entendia.
A Primavera tinha essa estranha capacidade de nos convencer que tudo era possível.
Despedimo-nos na esquina habitual.
Vi-a afastar-se com o mesmo passo leve de sempre.
Não fazia ideia de que estava a guardar, sem o saber, uma das últimas imagens verdadeiramente despreocupadas daquele tempo.
Cheguei a casa, almocei e, quando me preparava para descansar um pouco, o Manel apareceu.
— Vamos dar uma volta?
Peguei na bicicleta e seguimos para o DIFI.
Durante algum tempo estudámos Matemática. Os exames aproximavam-se e, por mais que gostasse de adiar os livros, havia contas que não podiam esperar.
Ao fim de algum tempo fechámos os cadernos.
— Já chega.
Saímos.
Fomos passear de bicicleta pelos caminhos que tão bem conhecíamos. Acabámos por subir até ao monte, onde parámos a descansar. Dali via-se uma boa parte da paisagem. Ficámos algum tempo sentados, falando do futuro como só os rapazes da nossa idade sabem fazer, com muitas certezas sobre coisas que ainda desconhecíamos completamente.
No regresso passei por casa para deixar a bicicleta e seguimos novamente para o DIFI.
Ao princípio da noite o Manel despediu-se.
Eu permaneci mais algum tempo a tratar de pequenas tarefas do grupo. Os problemas das últimas semanas começavam finalmente a diluir-se e era bom voltar a sentir que estávamos a construir alguma coisa em vez de apenas apagar incêndios.
Quando regressei a casa, já passava das oito.
Depois do jantar treinei um pouco com o meu pai e com a minha irmã. O exercício físico tinha sempre o efeito de arrumar a cabeça.
Mais tarde sentei-me com a família a ver televisão.
Antes de me deitar, pensei no dia que passara.
Não acontecera nada de extraordinário. Porém aquela imagem da Dila sob o efeito dos raios de sol, permaneciam na minha mente.
E, talvez por isso mesmo, adormeci convencido de que os dias continuariam todos assim.
Às vezes, é a própria tranquilidade que nos impede de ouvir o primeiro estalar da madeira antes da ponte começar a ceder.
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