A Claridade das Lentes e a Sombra do Coração
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Quinta-feira, 9 de Junho de 1977
Hoje acordei à hora do costume e segui para o liceu.
A manhã passou sem nada de especial. As aulas sucederam-se umas às outras e dei por mim a acompanhar os professores com mais atenção do que nos últimos dias. Talvez por saber que, quando a cabeça se ocupa, os pensamentos acabam por me dar algum descanso.
À hora do almoço fui à cantina.
Almocei sem pressa e regressei depois a casa.
Deitei-me um pouco para descansar. Não cheguei a dormir profundamente, mas fechei os olhos durante algum tempo e senti o corpo aliviar o cansaço acumulado dos últimos dias.
Ao princípio da tarde voltei ao Porto.
Fui finalmente buscar os óculos.
Quando os coloquei, tudo voltou a ganhar nitidez. As ruas, os rostos das pessoas, as montras, os eléctricos ao longe... tudo reapareceu com uma clareza que quase me surpreendeu.
É estranho como bastam duas lentes para tornar o mundo mais definido.
Gostava que fosse igualmente fácil ver com clareza aquilo que se passa dentro de mim.
Regressei a casa apenas o tempo suficiente para lanchar e preparar o equipamento.
Ao fim da tarde segui para a Academia.
Hoje realizei o exame para cinto verde.
Entrei no tatami concentrado. Procurei esquecer tudo o resto e pensar apenas em cada exercício, em cada movimento, em cada técnica.
Quando o exame terminou e o resultado foi anunciado, senti uma satisfação discreta.
Consegui.
O esforço de tantos meses valeu a pena.
Os colegas deram-me os parabéns e o mestre dirigiu-me algumas palavras de incentivo.
Agradeci.
Fiquei contente.
No regresso a casa levei o novo cinto cuidadosamente dobrado dentro do saco.
Enquanto caminhava, pensei que há vitórias que deviam bastar para nos fazer sentir felizes.
Hoje descobri que nem sempre é assim.
Cheguei a casa, jantei com a família e, já no meu quarto, voltei a olhar para o cinto verde.
Sei que representa um passo importante.
E, no entanto, por maior que seja a satisfação que sinto, ela não consegue ocupar o lugar onde continua instalada a mesma inquietação.
Talvez seja isso que mais me surpreende.
Percebo agora que a vida pode oferecer-me motivos para sorrir, mesmo quando o coração continua preso a uma dor que ainda não aprendeu a deixar partir.
Amanhã será outro dia.
Talvez consiga compreender um pouco melhor aquilo que hoje ainda me escapa.
Apago a luz.
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