Palavras que ainda não sabiam o que eram
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Quarta-feira, 8 de Junho de 1977
Desde ontem que ando sem óculos.
O Paulo partiu-me as duas lentes e ainda não tive oportunidade de as mandar substituir.
Fui assim para o liceu.
Ao princípio estranhei a falta deles.
As letras do quadro obrigavam-me a fazer um esforço maior e, por mais do que uma vez, tive de aproximar o caderno para confirmar o que julgava ter lido.
As aulas decorreram sem mais incidentes.
Quando terminaram, almocei na cantina e regressei a casa.
Mal pousei os livros, o meu pai e a minha mãe disseram-me que iam à feira de Gondomar.
Acompanhei-os.
Percorremos demoradamente as bancas, entre vendedores, vozes cruzadas e gente que parecia nunca ter fim.
Acabámos por comprar umas calças.
Viemos depois directamente para casa.
Por qualquer razão, regressara aborrecido.
Nem a feira, nem o movimento, nem as pessoas tinham conseguido distrair-me.
Ao fim da tarde fui para o DIFI.
Encontrei alguns colegas do centro e passei ali algumas horas.
Conversámos, tratámos de pequenos assuntos do grupo e, sem dar pelo tempo passar, chegou a hora de regressar.
Vim embora perto das nove menos um quarto.
Jantei com a família.
Mais tarde vi um pouco de televisão.
Quando a casa começou finalmente a sossegar, permaneci algum tempo sentado à secretária.
Havia um silêncio diferente naquela hora da noite.
Abri uma gaveta.
Retirei uma folha de papel.
Sem pensar muito, peguei na caneta.
Comecei a escrever.
Não tinha decidido fazer um poema.
Nem sequer pensei nisso.
As palavras foram aparecendo umas atrás das outras, como se procurassem dizer aquilo que eu ainda não conseguia explicar nem a mim próprio.
Quando parei, reli o que escrevera.
Dobrei a folha.
Guardei-a na gaveta.
Apaguei a luz.
Enquanto me deitava ocorreu-me que, por vezes, era mais fácil escrever algumas coisas do que dizê-las.
Naquela noite não pensei mais nisso.
Mas, sem o saber, talvez tivesse começado a conversar comigo de uma maneira diferente.
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