A tarde partiu-se ao meio

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Sexta-feira, 10 de Junho de 1977

Hoje levantei-me sem pressa.

Era feriado e a casa despertava mais devagar. Tomei o pequeno-almoço e sentei-me a ler um pouco. As páginas iam passando lentamente, sem destino certo, apenas pelo gosto de permanecer algum tempo em silêncio.

Mais tarde peguei nos pincéis e estive a pintar.

Não fiz nada de especial.

Limitei-me a deixar que as cores ocupassem parte da manhã.

Antes do almoço fui ver os patos e os pintainhos que o meu pai comprou há pouco tempo. Fiquei algum tempo a observá-los. Havia qualquer coisa de tranquilizador na simplicidade daqueles pequenos gestos repetidos todos os dias.

Depois ajudei o meu pai a limpar a motorizada.

Falámos pouco.

Nem era preciso.

Por vezes bastava estarmos os dois ocupados na mesma tarefa.

Almocei e, ao princípio da tarde, fui para o DIFI.

Passei parte da tarde a preparar os arquivos.

Era um trabalho paciente e metódico. Gostava daquela sensação de colocar cada coisa no seu lugar. Enquanto organizava papéis, esquecia por momentos a desordem que continuava dentro de mim.

Já passava das oito horas quando a minha irmã apareceu.

Mal a vi percebi que alguma coisa não estava bem.

Disse-me que a minha mãe tinha regressado do hospital.

Tivera um acidente.

Fiquei sem saber o que dizer.

Expliquei rapidamente aos colegas que tinha de ir embora e saí quase a correr.

Encontrei o meu pai e fomos juntos à farmácia comprar os medicamentos de que a minha mãe precisava.

Quando cheguei a casa vi-a com o braço ligado ao peito.

Só então percebi verdadeiramente o que acontecera.

Não parecia sofrer, mas o susto ainda lhe permanecia no rosto.

Ao jantar falou-se pouco.

Cada um parecia ocupado com os seus próprios pensamentos.

Mais tarde li algumas páginas de um livro e vi um pouco de televisão.

Agora que o dia terminou, dou por mim a pensar como tudo pode mudar de um instante para o outro.

Passamos horas preocupados com coisas que nos parecem enormes.

Depois basta uma notícia inesperada para lhes mudar completamente a dimensão.

Aquilo que me inquieta continua dentro de mim.

Sei-o.

Mas hoje percebo também que há dores que não são apenas nossas.


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