A Decisão
Sábado, 23 de Julho de 1977
De manhã tomei o pequeno-almoço, fiz ginástica e estive algum tempo com o Manel.
À tarde o Victor veio chamar-me a casa. Fomos a casa do padre trabalhar nos bonecos. Perdemos bastante tempo e, no fim, pouco fizemos. Mesmo assim, ficámos por lá até ao fim da tarde. Ensaiámos e depois viemos embora.
À noite eu e o Victor fomos esperar as raparigas.
Quando a Lina apareceu, fiquei com ela.
Já não era preciso procurar uma desculpa para nos afastarmos dos outros. Bastava começarmos a andar e, pouco depois, dávamo-nos conta de que estávamos os dois sozinhos. Conversámos, andámos juntos e trocámos alguns beijos.
Tudo isto começava a parecer natural.
Talvez tenha sido isso que mais me fez pensar.
Há poucos dias cada aproximação parecia trazer consigo uma pergunta. Agora já não havia tantas perguntas. Eu procurava a companhia da Lina e ela parecia procurar a minha. Quando estávamos juntos, não era preciso explicar porquê.
Quando chegou a altura de a levar a casa, pensei em pedir-lhe namoro.
A ideia já estava decidida dentro de mim. Faltava apenas dizê-la.
Mas, naquele momento, não consegui.
Não foi medo de ela recusar. Pelo menos não foi só isso. Havia qualquer coisa que me dizia que ainda não era aquela noite. Talvez porque algumas decisões, depois de tomadas, já não permitem voltar atrás da mesma maneira.
Por isso guardei o pedido para amanhã.
Despedi-me das raparigas e vim embora com o Victor.
Quando chegámos a minha casa, ele ficou comigo a ver um filme. Só foi embora à uma e meia da manhã.
Depois fiquei sozinho.
Foi então que a decisão voltou a ocupar-me os pensamentos.
Há poucos dias ainda escrevia que a Lina era apenas uma amiga. Na altura parecia-me perfeitamente claro. Depois vieram os beijos. Vieram os passeios. Vieram as noites em que esperava por ela. Vieram os dias em que comecei a reparar quando não estava.
E veio também aquela tarde na praia, quando descobri que já não a olhava apenas como a amiga de quem gostava.
As coisas foram acontecendo uma depois da outra.
Não houve um momento exacto em que eu pudesse dizer que tudo mudou. Talvez por isso tenha demorado tanto a perceber que já tinha mudado.
Agora já não me parece possível chamar a isto apenas amizade.
Quero pedir-lhe namoro.
Amanhã.
Ainda não sei exactamente como lhe vou dizer. Talvez amanhã, quando estivermos juntos, as palavras apareçam.
Hoje não consegui.
Mas a decisão está tomada.
E agora, sozinho no quarto, percebo que há decisões que começam muito antes de serem pronunciadas.
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