Corpo e Alma

Domingo, 24 de Julho de 1977

Às sete da manhã o Victor veio acordar-me.

Em menos de cinco minutos já estava com ele. Fomos à missa, embora a missa não fosse propriamente aquilo que nos tinha levado ali. Tudo tinha sido combinado com as raparigas. Queríamos encontrar-nos cedo e depois seguir para o rio, para Couce ou para o Sousa.

Às nove e meia já lá estávamos.

O dia começou bem. Havia aquela disposição própria dos dias passados fora de casa, quando ninguém sabe muito bem como as horas vão decorrer e isso parece ser precisamente a melhor parte.

Não demorou, porém, até surgirem os primeiros problemas.

As raparigas zangaram-se umas com as outras e a zanga foi crescendo durante o dia. À hora do almoço já se sentia bem a tensão e, mais tarde, voltou a acontecer o mesmo ao lanche.

Não me apetecia meter-me naquilo.

Talvez porque já tivesse problemas suficientes para resolver dentro da minha própria cabeça.

Fiquei com a Lina.

Passámos praticamente o dia juntos. Conversámos, brincámos, estivemos na água e fomos ficando cada vez mais próximos, sem necessidade de procurar momentos para isso.

Era curioso.

Há pouco tempo ainda havia uma espécie de cuidado em perceber até onde podíamos ir. Agora já não pensava tanto nisso. A proximidade entre nós tinha-se tornado natural.

E talvez fosse precisamente essa naturalidade que me fazia perceber que aquilo já não era uma simples amizade.

Eu sabia que gostava dela.

Sabia também que queria pedir-lhe namoro.

Só faltava dizer-lho.

O dia passou depressa. Talvez demasiado depressa. Quando estamos a gostar de estar num lugar e junto de alguém, parece que as horas têm uma maneira própria de fugir.

Quando regressámos, o CONTRAPOR reuniu-se no pátio de minha casa para ensaiar.

Às onze horas fomos esperar as raparigas.

Ainda tivemos alguns problemas que quase deram origem a uma briga, mas acabámos por resolver a situação.

Depois chegou novamente a altura de acompanhar a Lina.

E mais uma vez pensei no pedido.

Tinha-o decidido na noite anterior. Durante o dia, enquanto estivemos juntos, cheguei a pensar que aquela noite seria finalmente o momento certo.

Mas quando chegou a hora, aconteceu-me exactamente o mesmo de ontem.

Não consegui.

Não porque tivesse mudado de ideias.

Pelo contrário.

Talvez agora tivesse ainda mais certeza.

Fiquei apenas com a sensação de que aquele momento não era o nosso.

Regressei a casa com a decisão ainda comigo.

E comecei a perceber que o problema já não estava em saber o que queria.

Isso estava decidido.

O que me faltava era coragem para colocar em palavras uma coisa que, entre nós, já começava a existir sem elas.

Talvez seja mais fácil aproximarmo-nos de alguém quando não precisamos de lhe dizer exactamente o que estamos a sentir. Enquanto tudo permanece apenas nos gestos, nos olhares e nos beijos, ainda existe espaço para recuar.

Depois de se fazer uma pergunta, já não há a mesma liberdade.

Talvez fosse isso que me prendia.

Amanhã voltarei a vê-la.

E talvez amanhã consiga finalmente dizer aquilo que hoje, mais uma vez, ficou por dizer.


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