O Silêncio
Segunda-feira, 25 de Julho de 1977
De manhã levantei-me muito constipado.
Tomei o pequeno-almoço na cama e, depois de me vestir, fui ao DIFI escrever uma carta de resposta ao CEPA.
À tarde, até às quatro e meia, deitei-me na sala a ouvir música. O corpo pedia-me pouco mais do que isso. Fiquei ali, entregue às músicas e aos meus pensamentos, até o Manel aparecer.
Ensaiámos e gravámos algumas canções.
À noite fui com o Victor esperar as raparigas.
Ia bastante chateado.
Tinham começado a circular uns boatos por causa de me terem visto deitado com a Lina e outra colega. Não gostei nada daquilo. Talvez porque, depois de tudo o que vinha acontecendo entre mim e a Lina, já não suportasse que outras pessoas começassem a meter-se numa coisa que era nossa.
Quando tive oportunidade, falei com ela.
Contei-lhe tudo.
Ela ouviu-me e reagiu com um sorriso nervoso.
Foi então que lhe fiz o pedido.
Pedi-lhe namoro.
Ainda hoje não sei explicar porque escolhi precisamente aquele momento.
Trazia aquela decisão comigo desde há dois dias. Tinha pensado nela no meu quarto, tinha tentado encontrar o momento certo no dia anterior e tinha voltado para casa sem dizer nada.
Hoje, porém, tudo se misturou.
Os boatos.
A irritação.
A vontade de esclarecer as coisas.
E aquilo que sentia por ela.
Talvez tenha perdido a cabeça.
Disse-lhe.
E esperei.
Ela ficou em silêncio.
Não disse que sim.
Também não disse que não.
Ficou simplesmente calada.
E foi esse silêncio que me deixou sem saber o que fazer.
Depois daquele momento, tudo me pareceu diferente.
Até ali, eu podia acreditar que estávamos a caminhar na mesma direcção. Não tinha a certeza, mas havia os beijos, os passeios, a proximidade, a vontade de estarmos juntos. Havia tudo aquilo que eu próprio vinha sentindo e que, pouco a pouco, começara a tomar conta dos meus dias.
Agora havia uma pergunta feita.
E uma resposta que não chegava.
Fiquei a pensar nisso durante o resto da noite.
Talvez ela precise de tempo.
Talvez não saiba o que responder.
Talvez tenha ficado surpreendida com a maneira como fiz o pedido.
E talvez eu tenha escolhido precisamente a pior altura para dizer uma coisa que queria dizer há dois dias.
Não sei.
O que sei é que, depois de se fazer uma pergunta destas, já não podemos voltar atrás e fingir que ela não foi feita.
Eu queria uma resposta.
Mas também percebi que ela tinha o direito de pensar antes de a dar.
Não quero decidir por ela.
Apesar de me custar, tenho de esperar.
Passei estes últimos dias a descobrir o que sentia pela Lina. Hoje descobri uma coisa diferente.
Uma coisa é aquilo que sentimos.
Outra é aquilo que a pessoa que está diante de nós sente.
E entre uma coisa e outra pode existir um silêncio enorme.
Hoje fiquei parado diante desse silêncio.
Agora resta-me esperar.
Comentários
Enviar um comentário