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Terça-feira, 26 de Julho de 1977
De manhã o Manel veio acordar-me a casa.
Levantei-me ainda meio ensonado, tomei o pequeno-almoço e fiquei a assistir à ginástica dele. Depois fiquei algum tempo por casa, sem grande coisa para fazer, até chegar a hora do almoço.
Depois de comer deitei-me novamente. Quando o Manel apareceu, levantámo-nos para ensaiar e, pouco depois, juntou-se a nós o Zé Carlos. Gravámos algumas canções e a tarde foi passando entre a música, os ensaios e aquelas pequenas ocupações que, sem darmos por isso, já começam a dar uma certa forma aos nossos dias.
Quando eles foram embora preparei-me para ir à Academia.
O treino fez-me bem. Talvez porque, durante algum tempo, me permitiu não pensar naquilo que tinha acontecido na noite anterior.
Quando regressei, o Victor estava à minha espera. Acompanhou-me até casa.
Jantei e, mais tarde, saímos para esperar as raparigas.
Quando consegui ficar sozinho com a Lina, falei com ela.
Pedi-lhe que esquecesse aquilo que lhe tinha dito na noite anterior.
Disse-lho quase como quem tenta apagar uma coisa que escreveu por engano.
Ontem tinha perdido a cabeça. Hoje, depois de ter dormido sobre o assunto, já não sabia se tinha feito bem em pedir-lhe namoro daquela maneira. Talvez tivesse deixado que os boatos e a irritação falassem por mim. Talvez tivesse transformado num pedido aquilo que ainda precisava de compreender melhor dentro de mim.
Mas a Lina pareceu não querer aceitar o meu recuo.
Ou talvez tivesse percebido perfeitamente o que eu estava a tentar fazer e, por isso mesmo, não quisesse simplesmente fingir que nada tinha acontecido.
Acompanhei-a a casa.
Fomos os dois juntos, mas o caminho pareceu-me diferente dos outros. Não havia a leveza dos dias anteriores. Eu levava comigo uma sensação difícil de explicar, como se tivesse aberto uma porta e agora estivesse a tentar fechá-la sem saber se isso ainda era possível.
Queria voltar atrás.
Mas, ao mesmo tempo, não conseguia deixar de pensar na razão que me tinha levado a fazer o pedido.
Se eu não sentisse nada por ela, não teria passado dois dias a pensar na maneira de lhe pedir namoro.
Se fosse apenas um impulso, talvez já tivesse desaparecido.
Mas não desaparecera.
O que tinha mudado era a minha coragem.
Ontem quis avançar.
Hoje quis recuar.
E entre uma coisa e outra estava a Lina.
Talvez seja isto que começa a acontecer quando aquilo que sentimos deixa de caber dentro de nós. Primeiro pensamos que controlamos tudo. Escolhemos o momento, escolhemos as palavras, decidimos avançar ou ficar quietos. Depois descobrimos que, uma vez ditas certas coisas, elas passam a pertencer também à outra pessoa.
Eu podia pedir-lhe que esquecesse.
Mas ela já tinha ouvido.
Eu podia tentar apagar o pedido.
Mas aquilo que ela pensara ou sentira ao ouvi-lo já não dependia de mim.
Foi talvez isso que mais me perturbou hoje.
Percebi que os sentimentos não obedecem à nossa vontade. Podemos mudar de ideias de um dia para o outro, podemos desejar aproximarmo-nos e depois sentir medo daquilo que essa aproximação significa. Podemos querer voltar ao lugar onde estávamos antes.
Mas não voltamos exactamente ao mesmo lugar.
Hoje tentei voltar atrás.
Não sei se consegui.
E, pela primeira vez, começo a perceber que talvez a parte mais difícil de gostar de alguém não seja descobrir o que sentimos.
É perceber que, a partir de certa altura, já não somos os únicos a decidir o que acontece.
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