Pequenos Desencontros
De manhã, pouco depois de me levantar, soube que nos tinham roubado o melhor fato ao meu pai. Ele ficou bastante chateado e não era difícil perceber porquê. Depois desse problema, passei o resto da manhã a trabalhar nos bonecos para o teatro e continuei durante parte da tarde, até o Manel aparecer. Ensaiámos e, mais tarde, fomos a casa do Zé Carlos, onde ficámos algum tempo antes de regressarmos.
Quando chegámos a minha casa, encontrei a Dila a falar com a minha irmã.
Foi um daqueles encontros que não se combinam e que, precisamente por acontecerem assim, nos apanham desprevenidos. Não estava à espera de a encontrar ali. Agradeci-lhe o colete que me tinha trazido e ficámos algum tempo a trocar algumas palavras. Não se pode dizer que tenhamos conversado verdadeiramente. Foram apenas algumas frases, talvez porque ainda exista entre nós aquela espécie de embaraço que fica quando duas pessoas já partilharam coisas importantes e depois deixaram de fazer parte dos dias uma da outra como antes.
Ela acabou por ir embora.
Eu e o Manel continuámos a ensaiar e, mais tarde, a Dila voltou a aparecer, desta vez acompanhada pela irmã. Achei curioso voltar a encontrá-la no mesmo dia, sem que nenhum dos encontros tivesse sido combinado. Não aconteceu nada que pudesse considerar importante, mas a presença dela ficou comigo de uma maneira que não consegui ignorar.
Talvez porque a Dila não seja simplesmente alguém que conheço.
Houve um tempo em que fazia parte dos meus dias de uma forma muito diferente. Havia coisas que só faziam sentido porque ela estava lá. Depois tudo mudou. Os dias continuaram, as pessoas mudaram de lugar e eu próprio fui seguindo por outros caminhos. Agora encontro-a por acaso, trocamos algumas palavras e cada um continua a sua vida.
É estranho.
Uma pessoa pode deixar de estar presente e, ainda assim, não desaparecer completamente.
À noite o CONTRAPOR reuniu-se para um ensaio geral. Como acabámos cedo, fomos esperar as raparigas.
Quando encontrei a Lina, percebi que não estava bem-disposta. Não lhe perguntei muito. Talvez porque ainda não saiba muito bem como lidar com os silêncios dela depois de tudo o que aconteceu entre nós. O pedido de namoro, o meu arrependimento no dia seguinte, a tentativa de voltar atrás. Tudo isso parece ter deixado alguma coisa suspensa entre nós.
No fim, não a levei a casa.
Vim embora com os outros, mas fiquei a pensar nela durante o caminho.
Há poucos dias tudo parecia simples. Eu e a Lina aproximávamo-nos naturalmente, sem pensar muito no que estávamos a fazer. Depois comecei a perceber que aquilo já significava mais para mim. Pedi-lhe namoro e, quase logo a seguir, tentei desfazer o pedido.
Agora basta um pequeno gesto para eu começar a perguntar a mim próprio o que estará por trás dele.
Talvez seja consequência do que aconteceu.
Talvez seja apenas a minha cabeça a complicar aquilo que poderia ser simples.
Mas hoje aconteceu uma coisa curiosa. Encontrei a Dila duas vezes e, poucas horas depois, fiquei a pensar na Lina.
São duas pessoas muito diferentes na minha vida.
Uma pertence a uma história que eu julgava estar arrumada. A outra está a entrar numa história que ainda nem sei como vai acabar.
Talvez seja por isso que estes dias me parecem mais difíceis do que antes. Começo a perceber que estar perto de alguém não significa apenas partilhar momentos bons. Significa também lidar com aquilo que sentimos, com aquilo que já sentimos e até com aquilo que julgávamos ter deixado para trás.
Eu ainda estou a aprender.
E talvez seja justamente agora, quando começo a perceber que gostar de alguém não torna as coisas mais simples, que estou a descobrir o que significa estar verdadeiramente perto de outra pessoa.
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