Quando as Coisas Começam a Mudar
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Quinta-feira, 28 de Julho de 1977
De manhã levantei-me muito custosamente. Preguiça, claro. O Manel estava bastante aborrecido e pediu-me que lhe emprestasse o aparelho. Naquele estado de preguiça em que me encontrava, até uma coisa tão simples me parecia custar mais do que devia. Ele acabou por se chatear e foi embora.
Fiquei por casa e, depois de andar um pouco por ali sem grande vontade de fazer fosse o que fosse, acabei por me pôr a ler. A manhã passou assim, sem que acontecesse nada que merecesse ficar registado. À tarde fui para o DIFI, trabalhei durante algum tempo e depois saí.
À noite encontrei-me com os outros, mas não consigo dizer que tenha sido uma noite igual às anteriores. Há qualquer coisa que mudou nestes últimos dias, embora ainda não saiba explicar exactamente o quê.
Talvez tudo esteja a acontecer depressa demais. Talvez seja eu que comecei a olhar para as coisas de outra maneira.
Com a Lina, sobretudo.
Há poucos dias parecia-me tudo muito simples. Estávamos juntos, conversávamos, beijávamo-nos e eu deixava que as coisas acontecessem sem pensar demasiado nelas. Depois veio o pedido de namoro, a falta de resposta dela, o meu recuo, a tentativa de apagar aquilo que tinha dito. E, desde então, parece que qualquer pequeno gesto ganhou outro peso.
Uma palavra que fica por dizer.
Uma conversa que não acontece.
Um silêncio que não sei interpretar.
Talvez seja normal quando duas pessoas começam a aproximar-se. Enquanto nada é dito, podemos sempre fingir que não há nada para explicar. Mas depois chega um momento em que já não conseguimos voltar exactamente ao lugar onde estávamos antes.
Eu já não consigo.
Não sei ainda exactamente o que quero da Lina, nem sei se aquilo que sinto tem um nome que consiga escrever aqui sem me parecer demasiado grande. Sei apenas que aquilo que começou há poucos dias deixou de ser uma coisa pequena.
Talvez seja por isso que agora reparo tanto nos desencontros.
Antes, se alguém não aparecesse ou se uma conversa ficasse por fazer, provavelmente seguiria o meu dia sem pensar muito nisso. Agora não. Agora dou por mim a perguntar porquê, a tentar perceber o que mudou e se essa mudança aconteceu em mim ou na outra pessoa.
E talvez esta seja uma das coisas que começam a acontecer quando alguém passa a ocupar um lugar diferente na nossa vida.
Os momentos deixam de ser apenas momentos.
Começo a guardá-los, a compará-los com os anteriores e a procurar neles respostas que talvez nem sequer existam.
Ainda não sei onde isto vai dar.
Mas já percebi que não estou a viver estes dias da mesma maneira que os vivia antes.
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