A notícia que me tirou o chão

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Sexta-feira, 29 de Julho de 1977

A manhã passou sem nada de especial. Depois do pequeno-almoço fiz a minha ginástica e sentei-me a ler, deixando que as horas corressem devagar até à hora do almoço. Tinha ainda na cabeça o que acontecera na noite anterior, mas não lhe dava grande importância. A minha relação com a Lina parecia ter encontrado uma espécie de equilíbrio depois da pequena zanga. Ela tinha ficado mais conformada por eu a ter deixado na noite anterior e acabáramos por nos despedir com palavras mansas e alguns beijos. Parecia tudo resolvido, pelo menos por enquanto.

De tarde fui com o Manuel a casa do Victor levar os bonecos. Ficámos por lá durante uma parte da tarde, ocupados com aquelas coisas que ultimamente enchiam os nossos dias. Depois voltei a casa, lanchei, mudei de roupa e preparei-me para ir à Academia. Era o último treino da época e, embora eu não o dissesse, havia qualquer coisa de especial em saber que aquele ciclo estava a chegar ao fim.

Quando cheguei, o Victor esperava-me com uma notícia que me caiu em cima sem aviso, a Lina estava a trabalhar num bar de muito «má» fama.

Não quis acreditar. Talvez porque não quisesse acreditar. Uma coisa é ouvir qualquer comentário sobre alguém, outra é aceitar que aquilo possa ser verdade. Fui confirmar com os meus próprios olhos e foi então que a suspeita se transformou numa realidade que me custou engolir.

Quando a Lina veio ter comigo, disse-me que me explicaria tudo no dia seguinte. Não quis ouvir. Naquele momento já não estava disposto a escutar explicações, talvez porque a minha cabeça tivesse decidido antes de ela abrir a boca o que aquilo significava. A zanga, o ciúme, o medo de ser enganado e uma espécie de orgulho ferido misturaram-se de tal maneira que deixei de conseguir distinguir o que realmente sabia daquilo que estava apenas a imaginar.

Vim embora furioso. Tão furioso que, quando cheguei a casa, pousei a mala e saí imediatamente pela porta fora, sem explicar nada a ninguém. Deixei a família intrigada com aquela saída brusca, mas naquele momento precisava de estar sozinho. Precisava de qualquer coisa que me permitisse gastar a raiva antes que ela me gastasse a mim.

O meu pai chegou mais tarde e, de início, nem me encontrou. Quando finalmente apareceu, eu estava entregue a um kata particularmente difícil, procurando nos movimentos aquilo que não conseguia resolver dentro da cabeça. O corpo obedecia a uma sequência precisa enquanto os pensamentos se atropelavam. Era mais fácil concentrar-me num golpe, numa defesa ou numa mudança de posição do que pensar na Lina atrás de um balcão, naquele lugar que eu já tinha decidido, sem sequer ouvir a sua explicação, que não podia aceitar.

Mais tarde, a minha mãe convenceu-me a comer alguma coisa. Foi provavelmente a primeira pessoa a conseguir quebrar um pouco aquela barreira que eu tinha levantado à minha volta. Depois saí de casa com o Manuel e, finalmente, consegui falar. Desabafei com ele, deixando sair aquilo que durante horas tinha estado preso dentro de mim. Não resolvi nada, naturalmente. Mas talvez precisasse apenas de dizer em voz alta aquilo que me estava a ferver por dentro.

Naquela noite percebi que a Lina já ocupava em mim um espaço muito maior do que eu próprio queria admitir. E talvez fosse precisamente por isso que uma notícia sobre ela conseguira alterar-me assim tanto. 


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