Entre o ressentimento e o apaziguamento

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Sábado, 30 de Julho de 1977

Acordei ainda mal-humorado. O que acontecera no dia anterior não tinha desaparecido durante a noite e, embora eu não tivesse grande vontade de voltar a pensar nisso, a verdade é que ainda trazia comigo aquela irritação difícil de explicar. Talvez fosse apenas orgulho ferido, talvez fosse outra coisa qualquer, mas não me apetecia falar nem estar com muita gente. Tomei o pequeno-almoço e fechei-me na sala, procurando ficar sozinho. Passei a manhã a ouvir música, a ler um livro e a admirar o quadro que a minha irmã tinha comprado. Ia alternando entre uma coisa e outra, sem grande concentração em nenhuma delas. A música enchia a sala, o livro ocupava-me as mãos e o quadro prendia-me os olhos durante alguns momentos. Era como se precisasse de me distrair de mim próprio.

Não estava propriamente triste. Estava irritado. E talvez isso fosse ainda mais incómodo, porque a irritação nos faz querer encontrar um culpado, mesmo quando sabemos que as coisas não são assim tão simples. O que acontecera com Lina continuava a incomodar-me e eu não sabia muito bem o que fazer com aquilo. Por isso, naquela manhã, a melhor solução pareceu-me não fazer nada. Ficar quieto, ouvir música, ler, deixar o tempo passar. Talvez, se não voltasse ao assunto, ele acabasse por perder importância.

À tarde, o Victor veio chamar-me a casa e fomos para o adro da igreja. A presença dele ajudou-me a sair um pouco daquele isolamento em que me tinha metido durante a manhã. Mais tarde estive com a Lina. Ela mostrou-se arrependida do que se tinha passado no dia anterior e isso mexeu comigo mais do que eu estava disposto a admitir. Ainda tinha alguma coisa dentro de mim que queria permanecer zangada, talvez para não dar a impressão de que tudo se resolvia assim tão facilmente. Mas, ao mesmo tempo, era difícil continuar a alimentar aquela zanga quando percebia que ela também não estava indiferente ao que tinha acontecido.

Fiz por esquecer. Não sei se consegui logo, mas fiz esse esforço. Havia qualquer coisa de reconfortante em perceber que ela se tinha arrependido. Talvez porque, no fundo, eu precisasse de sentir que aquilo que acontecera também tinha tido importância para ela. Não queria ficar sozinho com a impressão de que eu era o único a quem aquilo incomodava. E, à medida que fomos estando juntos, comecei a sentir-me mais tranquilo. A irritação foi-se desfazendo pouco a pouco, sem que eu tivesse de tomar nenhuma decisão. Quando vim embora, já me encontrava mais temperado. O que de manhã parecia ocupar-me a cabeça quase por inteiro tinha perdido força. Não desaparecera completamente, mas já não me apertava da mesma maneira.

À noite, tarde demais, lembrei-me de que tinha de ir ao cinema com o meu pai. Só então me ocorreu que, por causa disso, já não poderia ir esperar as raparigas. Fiquei aborrecido comigo próprio por me ter esquecido. Ultimamente começava a haver encontros que eu aguardava com uma atenção diferente, e não gostava da ideia de perder um deles por simples distracção. Ainda assim, não havia nada a fazer. O cinema com o meu pai estava combinado e eu tinha de cumprir o que tinha marcado.

Acabei por ficar com a sensação de que o dia tinha começado muito pior do que acabara. De manhã queria estar sozinho e não pensar em ninguém. À tarde já procurava outra vez a companhia dos outros, e sobretudo a de Lina. Talvez fosse apenas uma mudança de humor. Ou talvez alguma coisa estivesse, devagar, a ganhar importância dentro de mim sem que eu ainda soubesse muito bem o que lhe chamar.


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