Uma viagem que não acaba na chegada
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Domingo, 31 de Julho de 1977
Acordei às seis e meia e, meia hora depois, já estava levantado a verificar as malas para o passeio. Às sete e vinte o Zé veio chamar-me a casa. A partida estava marcada para as oito, mas, como tantas vezes acontece quando muita gente depende da mesma hora, acabámos por partir apenas uma hora mais tarde. Eu não me importei muito. Desde que saímos, fiquei sempre com a Lina e, com ela por perto, o atraso parecia ter menos importância. A viagem fez-se com uma única paragem e passou-se depressa, apesar de termos chegado ao destino com uma hora de atraso.
Mal chegámos, tivemos de ir para uma missa que durou nada mais, nada menos do que duas horas. Duas horas. Para mim aquilo já era tempo demais. A certa altura não aguentei mais e fugi por uma janela. Outras saíram a braços, desmaiadas. Foi uma missa desastrosa, pelo menos para quem tinha de a suportar. Ainda hoje me custa perceber como foi possível passar tanto tempo ali dentro. A situação tinha qualquer coisa de absurdo e, no meio do cansaço, eu só queria sair dali.
Depois do almoço houve um curto descanso, mas não durou muito. Entrámos então na parte dita séria do programa, que acabou por ser quase três horas de política clerical. Para mim, aquilo tinha pouco de sério e muito de interminável. Depois, finalmente, chegou a vez do espectáculo. Havia um programa bastante grande e pouco tempo disponível, por isso o problema foi resolvido democraticamente. Cada grupo apresentou uma peça ou uma canção e, apesar da pressa, ainda acabou por sobrar algum tempo. Os grupos de maior intelecto sentiram-se então realizados, ou pelo menos assim parecia. Eu ia assistindo a tudo com uma mistura de divertimento e impaciência, esperando que chegasse a hora de regressarmos.
Pouco depois das nove ainda tive de «aturar» outra missa antes da partida. Depois de tudo o que já tinha acontecido durante o dia, aquilo pareceu-me quase uma provocação. Mas finalmente chegou o momento de irmos embora e foi nessa viagem de regresso que o dia ganhou para mim outro sentido.
A viagem foi muito diferente da ida. Havia muito barulho, conversas por todo o lado, risos e aquela proximidade que se cria quando um grupo inteiro regressa cansado, satisfeito e sem grande vontade de manter distâncias. Havia muitos casais e muito aconchego. Eu estava com a Lina e sentia-me bem. Não precisava de estar a pensar no que tinha acontecido nos últimos dias nem de tentar perceber exactamente o que existia entre nós. Bastava estar ali com ela. Sentia-me realizado, de uma maneira simples que talvez por isso mesmo fosse difícil de explicar.
A certa altura percebi que a despedida já começava antes de chegarmos. Quanto mais a viagem avançava, mais perto estava o momento em que cada um teria de seguir o seu caminho. E eu não queria pensar nisso. Queria prolongar aquele regresso, aquelas conversas, aquela proximidade, como se a viagem pudesse continuar mesmo depois de chegarmos ao ponto de partida. A despedida acabou por ser toda a viagem. Eu estava ali, junto dela, mas já sentia a falta que iria fazer quando deixasse de estar.
Quando finalmente chegámos, acompanhei a Lina a casa. Fiz o caminho com ela sem pressa. Depois de um dia inteiro passado juntos, custava-me que terminasse precisamente ali. Mas era assim que tinha de ser. Acompanhei-a até casa e, por alguns momentos, prolonguei tanto quanto pude aquele último pedaço do dia. Depois tive de me despedir.
Agora, na privacidade do quarto, hesito. O meu lugar e o da Lina fora escolhido propositadamente no banco traseiro da camioneta. Quando mencionei os casais e o aconchego, referia-me a nós. A proximidade física e a distração dos outros levaram-nos a ser ousados. No escuro da viagem, acariciámo-nos. A Lina encaminhou as minhas mãos para o seu corpo, enquanto nos beijávamos. Foi um contacto que me perturbou e encantou, um prazer que nunca havia experimentado antes.
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