Um Dia de Sol e Silêncio

Sexta-feira, 22 de Julho de 1977

De manhã levantei-me e senti logo no corpo os efeitos do dia anterior.

Depois do pequeno-almoço tomei banho e fiquei a trabalhar com a minha mãe e a minha irmã Celeste em alguns trabalhos de casa. O trabalho prolongou-se pela tarde.

Os ombros, entretanto, lembravam-me constantemente a praia.

As queimaduras solares estavam bastante dolorosas. Esfreguei pomada e, antes de ir para a Academia, tirei o que pude. Mesmo assim, só a custo consegui vestir uma camisa.

Na Academia fiz o treino.

Quando regressei, o Victor estava à minha espera para me dizer que já não era preciso acompanharmos as raparigas. Trouxe-me a casa e foi embora.

Jantei e fiquei a ver televisão.

Hoje foi diferente dos últimos dias.

Não houve Lina.

Não houve passeios, nem beijos, nem aquelas caminhadas em que, quase sem darmos por isso, acabamos os dois mais afastados dos outros.

E talvez tenha sido bom assim.

Depois da noite em que quase não dormi e de um dia inteiro passado na praia, o corpo precisava de descanso. Os ombros doíam-me e sentia uma espécie de cansaço que não era apenas físico.

Mas há uma coisa que me deixou a pensar.

Ontem estive praticamente o dia inteiro com a Lina. Hoje não a vi e, mesmo assim, ela apareceu várias vezes nos meus pensamentos.

Não precisei de a encontrar para me lembrar dela.

Bastou estar sozinho.

Talvez seja esta uma das coisas que começam a acontecer quando alguém passa a ter importância para nós. A pessoa deixa de estar apenas nos momentos que partilhamos. Começa a acompanhar-nos mesmo quando não está presente.

E isso é novo para mim.

Até há pouco tempo, quando alguém não estava comigo, simplesmente não estava.

Agora parece que não é bem assim.

Hoje não houve nada de extraordinário. Trabalhei, tratei dos ombros, fui à Academia, voltei para casa e vi televisão.

Um dia simples.

E, no entanto, quando me deitei, percebi que a Lina tinha estado comigo durante boa parte dele.

Não sei se isso é gostar de alguém.

Talvez seja.

Ainda estou a aprender a reconhecer estas coisas.

Por enquanto, sei apenas isto.

Ontem queria estar com ela.

Hoje, sem a ver, senti a falta dela.


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