À procura de um eco
← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →
Domingo, 12 de Junho de 1977
Hoje, pela primeira vez desde há muito tempo, fui à igreja.
Foi o Manel quem me convenceu a acompanhá-lo.
Aceitei mais por curiosidade do que por convicção. Há muito que não entrava naquela igreja e quis perceber se alguma coisa mudaria dentro de mim.
Não mudou.
Assisti à missa com respeito, observei as pessoas, ouvi o padre, reparei nos acólitos e em toda a cerimónia.
Mas continuei a sentir a mesma distância.
Quando saímos, disse ao Manel exactamente aquilo que pensava.
Continuo convencido de que muitos padres vivem mais preocupados com o poder que exercem do que com aquilo que pregam.
Quanto aos acólitos, continuo a acreditar que muitos ali estão porque foram empurrados pelos pais ou porque encontraram na igreja uma forma de conviver com rapazes e raparigas da sua idade.
Os mais velhos parecem-me diferentes.
Uns movem-nos a devoção.
Outros o hábito.
Outros, talvez, apenas a necessidade de continuar a fazer aquilo que sempre fizeram.
O Manel ouviu-me sem argumentar.
Conhece suficientemente bem as minhas ideias para saber que não falo por provocação.
É simplesmente aquilo em que acredito.
À tarde veio a minha casa para festejar o vigésimo aniversário da minha irmã Fernanda.
Passámos algum tempo todos juntos e, mais tarde, saímos para passear.
Como raramente vou até ao adro da igreja, acabei por me divertir mais do que esperava.
O ambiente era animado, havia muita gente conhecida e, antes de regressarmos, apresentaram-me duas raparigas.
Falámos apenas alguns minutos.
Foi um encontro sem importância.
Mesmo assim, dei por mim a reparar como a vida continua a colocar pessoas novas no nosso caminho, mesmo quando não as procuramos.
Agora, enquanto escrevo estas linhas, penso que hoje entrei numa igreja à procura de qualquer coisa que nem eu saberia definir.
Não a encontrei.
Talvez porque as respostas que procuro não estejam num lugar.
Talvez ainda nem existam.
Por agora, limito-me a continuar o caminho.
Comentários
Enviar um comentário