Amigos que deixam de ser apenas amigos
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 1977
Um amigo é alguém com quem podemos conversar, sair, rir, contar coisas que não contamos a toda a gente. É alguém que está presente nos dias bons e, pelo menos em princípio, também nos maus. Talvez por isso a amizade seja uma das coisas que mais valorizo.
Mas também aprendi que não devemos confiar cegamente em toda a gente.
Quanto ao Cristóvão e ao Rui, fui sempre muito desconfiado. Nunca consegui entregar-lhes completamente a minha confiança. Não sei se era apenas uma impressão minha ou se havia qualquer coisa no comportamento deles que me levava a manter alguma distância. O certo é que essa desconfiança acabou por me ser útil.
Vim a saber, por vários meios, que ambos tinham tentado descobrir qual era o papel do CONTRAPOR lá em casa do padre.
Isso confirmou algumas das minhas suspeitas.
Eu sempre fui muito reservado quanto às minhas confidências. Não gosto de contar tudo o que sei, nem de pôr nas mãos dos outros aquilo que considero ser meu. Talvez por isso tenha conseguido evitar que determinadas coisas chegassem onde não deviam.
Mas não posso dizer exactamente o mesmo do Manel e do Victor. Também eles tiveram alguns deslizes.
Não foram perfeitos, naturalmente. Mas, pensando bem, os deslizes dos outros também não foram menores. E foi precisamente essa sucessão de pequenas coisas que me levou a desconfiar do Cristóvão e do Rui.
Desta vez, parece que acertei. Falta-me, no entanto, descobrir qual é exactamente o papel deles em tudo isto. Tenho as minhas suspeitas.
Desconfio que possam ter sido mandados pelo cabecilha do grupo coral. Ele tem grande interesse em nos correr de lá. A sua intenção parece-me bastante clara. Quer apregoar a sua santa religião sem que apareça alguém para contradizer aquilo que diz.
Para ele, aquilo que afirma é simplesmente a verdade. Mas é precisamente aí que, a meu ver, está enganado.
Não consigo aceitar que alguém pretenda possuir sozinho a verdade e queira impedir os outros de pensar, perguntar ou discordar. Se uma ideia é realmente forte, não deveria ter medo de ser discutida. É por isso que estou lá. Mas sou apenas um.
E começo a perceber a dificuldade de lutar contra um projecto tão grande quando se está praticamente sozinho.
Sei que há colegas que pensam como eu. Sei que não sou completamente o único a ver as coisas desta maneira. Mas, quando chega o momento de agir, cada um parece recuar. Uns afastam-se, outros calam-se e, no fim, fico eu a enfrentar aquilo que pretendia enfrentar com a ajuda deles.
Isso começa a pesar. Ainda assim, não deixei o CONTRAPOR. Há uma razão muito concreta para continuar.
A Lina.
É ali que tenho oportunidade de me encontrar com ela. E talvez seja essa uma das razões que me faz aguentar mais tempo do que aquilo que aguentaria noutras circunstâncias. Mas também sei que não poderei continuar indefinidamente.
Há coisas que conseguimos suportar durante algum tempo porque temos uma razão para isso. Depois chega um momento em que essa razão já não consegue compensar tudo o resto. Ainda não sei quando será esse momento. Por enquanto, continuo.
Desconfiado de uns, decepcionado com outros e cada vez mais consciente de que uma amizade pode ser uma coisa muito bonita, mas também pode esconder coisas que só descobrimos quando já é tarde.
E talvez seja precisamente por isso que continuo a preferir a amizade verdadeira à quantidade de amigos.
Mais vale ter poucos e saber quem são.
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