Um dia sem história
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 1977
“Algumas horas de vida.”
Não, não morreu ninguém.
Mas, pensando bem, talvez o título não esteja assim tão deslocado. Nesta época, anda tanta gente semi-morta que aquilo que aconteceu esta manhã merece bem estas palavras.
Tudo começou pelas oito horas.
O tempo parecia divertir-se com a indecisão das pessoas, obrigando-as a olhar para o céu e a decidir entre levar o guarda-chuva ou confiar na camisa. Foi exactamente o que aconteceu comigo e com a minha irmã Fernanda. Não pensámos muito e optámos pela camisa.
Saímos de casa e dirigimo-nos calmamente para a paragem. Não fomos com pressa. O dia ainda mal tinha começado e também não havia razão para correr.
Pouco depois chegou um trólei.
A viagem foi como tantas outras, embora hoje me pareça que aquelas poucas horas tiveram qualquer coisa de diferente. Talvez porque, sem eu dar por isso, passei por vários mundos durante o mesmo dia.
Quando chegámos ao nosso destino, despedi-me da minha irmã. Combinámos encontrar-nos novamente no mesmo local e cada um seguiu o seu caminho.
Eu tinha um assunto para tratar numa grande empresa de electrodomésticos do Porto. Ia falar com o administrador, ou seja, com o patrão.
Passados cerca de quinze minutos fui recebido e atendido. Como não estava cansado, permaneci de pé enquanto tratava do assunto que me tinha levado ali. Resolvida a questão, não prolonguei a conversa. Despedi-me e saí.
Esperei cerca de quinze minutos.
Quando fui recebido, fiquei de pé enquanto tratava do assunto que ali me tinha levado. Não estava cansado e não havia motivo para me sentar.
Falámos do que havia para falar.
Depois despedi-me e saí.
Tão simples como isto.
Voltei ao local combinado e encontrei a minha irmã à minha espera.
Fomos para outro café. Já era o terceiro.
No primeiro tínhamos tomado o pequeno almoço. No segundo eu tinha telefonado e fumado um cigarro. Agora tomámos qualquer coisa quente e jogámos bilhar.
Ela perdeu dois jogos.
Eu fumei outro cigarro.
Talvez um dia alguém leia estas linhas e ache estranho eu ter registado cafés e cigarros, partidas de bilhar e viagens de trólei.
Mas era a minha vida.
Naquele momento, era isto que existia.
E talvez seja precisamente por isso que escrevo. Porque uma vida não é feita apenas dos acontecimentos que julgamos importantes. Há manhãs inteiras que passam entre um café e outro, entre um cigarro e uma conversa, e quando damos por isso já passaram algumas horas que não voltam.
Era curioso como a manhã se ia construindo a partir de coisas tão pequenas. Um trólei, uma conversa de negócios, cafés, cigarros, uma partida de bilhar. Nada que, isoladamente, merecesse grande importância. E, no entanto, eram aquelas pequenas coisas que compunham o nosso dia.
Ao meio-dia, a minha irmã telefonou ao Narciso.
Ficámos de nos encontrar numa churrasqueira.
Apanhámos um táxi.
Esperámos.
O Narciso apareceu, mas não num dos seus carros. Veio numa furgoneta da fábrica, conduzida por um dos empregados.
A churrasqueira estava em obras.
Mudámos de planos e fomos para um restaurante.
A partir daí, a conversa foi sobretudo sobre negócios. Era natural. Estávamos com pessoas ligadas a esse mundo e eu ia aprendendo, talvez sem grande entusiasmo, como os adultos se movem nele.
Mais tarde juntou-se a nós um dos sócios ricos do Narciso.
A sua presença acabou por nos ser útil.
Ofereceu-nos boleia.
Primeiro levou a minha irmã à casa que ela dirige.
Depois deixou-me não muito longe da paragem do trólei.
E foi ali que aquela sucessão de horas terminou.
Trólei.
Administrador.
Cafés.
Telefone.
Cigarros.
Bilhar.
Táxi.
Fábrica.
Restaurante.
Negócios.
Carros.
Pessoas.
Tudo isto dentro de algumas horas.
Talvez seja isto uma vida.
Ou talvez sejam apenas algumas horas dela.
Cheguei ao fim do dia com a sensação de ter passado por muitas coisas sem ter ficado verdadeiramente em nenhuma. Como se tivesse andado de um lado para o outro, vendo pessoas, ouvindo conversas, tratando de assuntos, e no entanto houvesse outra parte de mim que permanecesse noutro lugar.
THE END.
Mas não propriamente um fim.
Para quebrar um abatimento, houve um fim mais feliz.
Nada mais do que um beijo no meio de um temporal.
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