Um dia igual aos outros, excepto por ela

 

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Sábado, 24 de Setembro de 1977

Ontem tinha sido um dia estranho. O tempo estivera chuvoso, indeciso, quase como se também ele não soubesse muito bem o que queria. Hoje, pelo contrário, estava bom tempo.

Ninguém o percebe. Talvez seja por isso que, às vezes, penso que o tempo se parece bastante comigo.

Num dia parece que sei exactamente o que quero. No outro, basta uma pequena mudança para tudo ficar diferente. Há momentos em que tenho certezas e outros em que me vejo perdido entre pensamentos que não consigo organizar.

Hoje, porém, o tema é o antigo. Aquele que já tantas vezes tem aparecido nas minhas páginas.

Não aconteceu nada de especial durante o dia. Não houve nenhum acontecimento que merecesse uma descrição demorada, nenhuma aventura, nenhuma novidade capaz de quebrar verdadeiramente a rotina.

E, no entanto, houve a Lina. Encontrei-me com ela.

É curioso como uma pessoa pode transformar um dia aparentemente vazio numa coisa que vale a pena guardar. Se eu olhasse apenas para os acontecimentos, teria muito pouco para escrever. Mas não consigo considerar insignificante um dia em que estive com ela.

Talvez seja essa a razão por que continuo a escrever mesmo quando penso que não tenho nada para contar.

Há dias que não têm acontecimentos. Têm pessoas. E às vezes uma pessoa chega para preencher o espaço que o resto do dia deixou vazio.

Passei algum tempo com a Lina e, mais uma vez, fiquei com aquela sensação que já conheço demasiado bem. Não sei exactamente o que quero. Sei que gosto de estar com ela. Sei que procuro a sua companhia e que a sua presença me afecta de uma maneira que não consigo explicar completamente.

Mas também sei que continuo cheio de dúvidas.

O futuro aparece-me cada vez mais vezes no pensamento. O casamento, o amor, a vida em comum, as responsabilidades. Tenho pensado nisso tudo e, quanto mais penso, menos simples me parece.

Talvez seja cedo demais para procurar respostas. Tenho dezassete anos e já quero compreender aquilo que talvez só venha a compreender muitos anos mais tarde. Mas não consigo evitar.

Quando estou com a Lina, algumas dessas perguntas desaparecem durante algum tempo. Não preciso de pensar no futuro. Basta o momento.

Depois, quando fico sozinho, elas regressam. E assim passou mais este dia. Bom tempo lá fora. A mesma confusão dentro de mim. E a Lina, como tantas vezes, no centro de tudo aquilo que ainda não sei explicar.


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