Entre o que quero e o que temo
← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →
Domingo, 25 de Setembro de 1977
Pela primeira vez tive uma conversa séria com a Lina.
A conversa começou por causa da Paula. Ela começou a fazer-me uma série de perguntas sobre a Lina e sobre aquilo que eu sentia por ela. Queria saber qual era o meu interesse, se gostava dela, se acreditava em Deus e outras perguntas semelhantes.
Algumas dessas perguntas pareceram-me idiotas. Talvez porque fossem demasiado directas.
Ou talvez porque tocassem precisamente nos assuntos sobre os quais eu próprio ainda não tinha conseguido chegar a uma conclusão.
Respondi como pude, mas fiquei com a sensação de estar a ser obrigado a olhar de frente para coisas que normalmente deixava escondidas dentro de mim.
Depois das perguntas da Paula, fiquei finalmente a sós com a Lina. Aproveitei esse momento para lhe falar novamente do meu pedido de namoro.
Já lho tinha feito anteriormente e a resposta dela tinha sido muda. Não me tinha dito sim nem não. Tinha simplesmente corado.
Ainda hoje não sei exactamente o que significou aquele rubor. Mas recordava-me dele.
Por isso voltei ao assunto, embora sem insistir demasiado. Como não queria ficar preso àquela pergunta, mudei a conversa para outro ponto. Falei-lhe do casamento.
Talvez pareça estranho estar a falar de casamento com uma rapariga da nossa idade. Mas eu já vinha a pensar nisso há vários dias. Tinha imaginado homens casados, famílias, problemas, dinheiro, amor e tudo aquilo que uma vida a dois poderia trazer.
Por isso comecei a falar com ela sobre os prós e os contras de casar.
Falei-lhe das dificuldades que poderiam aparecer antes do matrimónio e também depois dele. Não queria apresentar o casamento como uma coisa necessariamente boa ou má. Havia demasiadas coisas envolvidas para que pudesse ser visto de uma maneira tão simples.
Cheguei mesmo a falar-lhe da possibilidade de não ser necessário casar. Ela ficou confusa. Percebi isso pela sua reacção, mas continuei a explicar aquilo que pensava.
Para mim, uma união não podia viver apenas de uma cerimónia ou de uma assinatura. Era preciso haver amor. Era preciso haver entendimento. Era preciso existir alguma segurança para enfrentar os problemas que inevitavelmente apareceriam.
Voltei também ao assunto dos problemas familiares.
Uma vida em comum podia ser muito bonita, mas também podia transformar-se rapidamente numa fonte de conflitos se as pessoas não estivessem preparadas para aquilo que ela exigia.
E depois havia o dinheiro.
Eu continuava a acreditar que era necessário ter dinheiro para viver sem estar permanentemente dependente das dificuldades. Não queria dizer que o dinheiro comprasse o amor. Não comprava. Mas podia evitar muitos problemas que, de outra maneira, acabavam por pesar sobre uma relação.
Falei-lhe de tudo isto. Enquanto falava, fui reparando que a Lina me ouvia com atenção. Não me pareceu que aquelas palavras lhe fossem indiferentes.
Quando finalmente chegou a hora de a deixar, fiquei com a impressão de que a conversa não tinha caído em saco roto. Deixei-a pensativa.
E isso deixou-me também a pensar. Talvez eu tivesse falado demais. Talvez tivesse levantado questões que ela ainda não tinha pensado.
Ou talvez tivesse simplesmente dito em voz alta aquilo que ambos começávamos a sentir sem sabermos muito bem como lhe chamar.
Enquanto regressava, fiquei com uma frase a andar dentro da cabeça. Pretendo, mas, no entanto, não pretendo. É mesmo confuso. E talvez essa frase servisse tanto para mim como para ela.
Comentários
Enviar um comentário