Um sonho que me deixou inquieto

 

← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →

Segunda-feira, 26 de Setembro de 1977

Hoje tive um sonho/pensamento.

Foi um sonho estranho, mas sobretudo pessimista. Não era propriamente um sonho como aqueles que aparecem durante o sono e desaparecem quando acordamos. Era antes uma espécie de imaginação que se foi formando na minha cabeça, como se eu estivesse a assistir antecipadamente a qualquer coisa que poderia acontecer um dia.

Era sobre a aproximação do meu casamento com a Lina.

Num momento de desvario, imaginei-me a pedir-lhe aquilo que talvez um dia pudesse parecer a coisa mais natural do mundo.

«Queres ser minha mulher?»

Quando pensei em mim próprio a dizer uma coisa dessas, quase me deu vontade de rir.

Francamente.

Um rapaz calmo e simpático como eu dizer tal asneira.

Que disparate.

Mas o sonho não ficou por aí.

Quando estávamos sós, a proximidade entre nós fazia surgir outras coisas. O desejo começava a falar por nós e aquilo que normalmente se mantém escondido acabava por vir ao de cima. O prazer da carne libertava-nos a língua e fazia-nos dizer muito mais do que aquilo que talvez tivéssemos coragem de dizer acordados.

Quem me visse e me ouvisse ficaria certamente confuso.

Eu próprio ficava confuso.

Talvez essa seja a palavra que melhor descreve aquilo que sinto.

Confusão.

Quero aproximar-me da Lina, mas ao mesmo tempo tenho receio daquilo que essa aproximação pode provocar em mim. Não tenho medo dela. Não tenho medo de estar com ela. O que temo é perder o controlo sobre mim próprio quando estamos demasiado próximos.

Recordei aquele domingo em que saí com ela.

Na altura temi que tivéssemos de ficar sós.

Não porque tivesse medo de ficar sozinho com ela. Não é isso.

Mas porque sei que existe em mim um desejo que, quando aparece, pode tornar-se mais forte do que a minha vontade de o controlar. O prazer da carne possui-me por momentos e eu receio que isso me faça sair de mim próprio e cometer alguma asneira.

É uma sensação difícil de explicar.

Quero.

Mas não quero.

Aproximo-me.

Depois recuo.

Desejo a proximidade e, ao mesmo tempo, receio aquilo que pode acontecer quando essa proximidade se torna demasiado intensa.

Talvez seja uma contradição própria da idade. Temos vontade de crescer, de conhecer tudo, de experimentar aquilo que ainda nos é desconhecido, mas continuamos sem saber muito bem como lidar com aquilo que sentimos.

E eu sinto.

Sinto muito mais do que às vezes gostaria.

O problema é que não consigo simplesmente desligar esses sentimentos. Eles aparecem quando menos espero e obrigam-me a pensar em coisas para as quais ainda não tenho respostas.

Talvez seja por isso que aquele sonho me deixou inquieto.

Não por imaginar um casamento com a Lina.

Mas por imaginar aquilo que poderia existir antes dele.

E depois dele.

Fiquei algum tempo preso a esses pensamentos, tentando perceber onde terminava o amor e começava o desejo. Talvez nem sequer exista uma fronteira tão nítida como eu gostaria.

No fundo, continuo a mesma pessoa que escreveu ontem aquela frase que já parece resumir tudo.

Pretendo, mas, no entanto, não pretendo.

É mesmo confuso.


← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →


Comentários