Este é um mundo de loucos e incompreensível

 

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Terça-feira, 27 de Setembro de 1977

É verdade.

Este é um mundo de loucos e incompreensível.

E, pelo que parece, nem todo o louco é feliz, se é que algum dia houve algum.

Hoje, quando me dirigia para a Academia, encontrei o Victor. Foi uma surpresa, porque, segundo sabia, ele só «despegava» às oito horas e ainda faltava uma hora.

Parei junto dele.

Começou a explicar-me o motivo de ali estar, mas, verdade, verdadinha, não consegui compreender muito bem a explicação. Talvez estivesse distraído. Talvez a história fosse realmente difícil de perceber. Ou talvez a presença da Lina, que se encontrava junto de mim naquele momento, tivesse contribuído para que eu prestasse ainda menos atenção ao que o Victor dizia.

Fiquei ali a ouvi-lo, tentando acompanhar o raciocínio.

Não consegui.

Acabei por seguir para a Academia com a sensação de que continuava exactamente na mesma. Tinha ouvido a explicação, mas não tinha conseguido perceber o que, afinal, o Victor pretendia explicar-me.

Quando regressei da Academia, porém, encontrei novamente o Victor.

E desta vez não vinha sozinho.

O Manel estava com ele.

Os dois pareciam determinados a reforçar a explicação da tarde. Voltaram a falar-me do assunto, cada um acrescentando qualquer coisa àquilo que já me tinha sido dito.

Ou talvez tentassem.

Fiquei outra vez a ouvir.

E continuei sem compreender.

Por mais que tentassem explicar, havia qualquer coisa que não encaixava na minha cabeça. Talvez eu estivesse simplesmente cansado. Talvez a questão fosse mais complicada do que parecia. Ou talvez o mundo estivesse mesmo a ficar cada vez mais difícil de compreender.

No fim, fiquei praticamente como estava no princípio.

Sem perceber.

E foi então que voltei à frase que me tinha surgido tantas vezes nos últimos dias.

Este é um mundo de loucos e incompreensível.

Talvez eu próprio faça parte dele.

Afinal, também tenho as minhas contradições, as minhas dúvidas e as minhas ideias que nem sempre consigo explicar aos outros. Talvez seja por isso que compreenda tão pouco aquilo que os outros tentam explicar-me.

Há dias em que pensamos demasiado.

Há outros em que nem sequer conseguimos pensar o suficiente.

Hoje parece ter sido um desses.


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