Reflexão sobre monstros e criadores
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Quarta-feira, 28 de Setembro de 1977
Hoje li a história fascinante de Frankenstein.
É, de facto, uma história impressionante. À medida que avançava na leitura, fui ficando cada vez mais preso àquilo que acontecia, mas também a pensar no que a história escondia por baixo da fantasia. Não era apenas uma criatura criada por um homem. Havia ali qualquer coisa sobre a própria natureza humana.
Chega-se a determinado momento em que já não sabemos muito bem qual dos dois é o verdadeiro monstro.
Frankenstein julga ter criado um monstro.
Mas aquilo que a criatura encontrou depois do seu nascimento foi brutalidade e incompreensão. Foi rejeitada, foi tratada como algo que não devia existir e, perante aquilo que encontrou no mundo, acabou por se transformar naquilo que os outros já esperavam que ela fosse.
É difícil não pensar nisso.
A criatura chega mesmo ao ponto de se arrepender de ter sido criada e de odiar o seu criador.
E, apesar de toda a violência que existe na história, compreendo quando pede um ser semelhante a si, uma criatura feminina que possa acompanhá-lo. Também aí nos é mostrado o desejo de não estar sozinho, a necessidade de encontrar alguém que nos compreenda e que seja capaz de viver connosco aquilo que os outros recusam.
Depois Frankenstein decide não terminar a sua segunda obra.
E a partir daí tudo se encaminha para o fim.
Frankenstein morre com ódio pela criatura e a criatura fica, por sua vez, com o ódio pelo seu criador.
No fundo, parece existir uma espécie de círculo. Um cria o outro, um rejeita o outro e ambos acabam destruídos pela relação que nunca conseguiram resolver.
O livro é fantasista, naturalmente, mas não deixa de ter um fim moralizante.
Talvez seja precisamente essa a sua força.
Mesmo uma história impossível pode dizer-nos alguma coisa sobre coisas que são perfeitamente reais. A rejeição, a solidão, a incompreensão e a necessidade de sermos aceites não pertencem apenas aos monstros dos livros. Existem também nas pessoas.
E, enquanto pensava nisso, lembrei-me de uma conversa que tive com a Lina.
Ela tinha-me dito que a mãe não estaria preocupada connosco.
Francamente.
Fiquei a pensar nessa frase e não consegui deixar de achar estranho que uma mãe pudesse olhar para a situação com tanta tranquilidade.
Talvez eu esteja a complicar aquilo que é simples.
Ou talvez os adultos tenham maneiras de ver as coisas que ainda não consigo compreender.
Mas, depois de ler Frankenstein, fiquei com uma ideia na cabeça.
Às vezes não é a criatura que nasce má.
Às vezes é aquilo que encontra quando abre os olhos que acaba por fazê-la assim.
E talvez seja essa a parte mais inquietante de toda a história.
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