António Aleixo, “um sabor popular”

 

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Quinta-feira, 29 de Setembro de 1977

Ontem recebi um caderno do FAOJ, mas só hoje me dei ao trabalho de o ler.

Era um pequeno livro sobre António Aleixo, esse poeta extraordinário que, apesar da simplicidade das suas palavras, consegue dizer coisas que ficam dentro de quem as lê ou escuta.

Fiquei particularmente impressionado com a sua poesia.

Os seus versos são simples, fáceis de compreender e têm aquilo a que eu chamaria um sabor popular. Não precisam de grandes palavras nem de construções complicadas para dizer alguma coisa. Talvez seja precisamente essa simplicidade que lhes dá força.

Penso que os seus poemas são, e serão sempre, adaptados à época.

As pessoas mudam, os tempos mudam, as maneiras de viver também mudam, mas há determinadas coisas que continuam a ser verdadeiras. A diferença entre as pessoas, a pobreza, a esperança, a injustiça, a maneira como tratamos os outros. Tudo isso continua a existir.

Por isso, ao ler António Aleixo, tive a sensação de que aquelas palavras não pertenciam apenas ao tempo em que foram escritas.

Continuavam vivas.

Um dos poemas que li dizia:

“Encaro com mágoa imensa
Deste mundo a excepção;
Até nos cães há diferença
Uns vivem bem, outros não.
”

Fiquei a pensar nestes versos.

Há realmente diferenças em todo o lado. Há pessoas que vivem bem e outras que vivem mal. Umas têm oportunidades que outras nunca terão. Umas nascem com quase tudo e outras passam a vida inteira a lutar por aquilo que para as primeiras é natural.

E depois há a esperança.

Para terminar a minha exposição, voltei a um dos seus versos, intitulado “Esperança”:

“O mundo só pode ser
Melhor do que até aqui
Quando consigas fazer
Mais pelos outros que por ti
”

É uma ideia simples.

Talvez demasiado simples para um mundo que gosta de complicar tudo.

Mas há nela qualquer coisa que me agrada. Se cada pessoa pensasse um pouco menos apenas em si própria, talvez o mundo fosse realmente diferente.

E, depois de escrever tudo isto sobre António Aleixo, pensei na Lina.

Porque também estive com ela.

E lembrei-me de uns versos que me dizem qualquer coisa quando estou perto dela:

“Quando me encontro contigo
E não te posso falar
Com os meus olhos te digo
O que me diz o teu olhar.
”

Talvez seja isto que mais me fascina nos sentimentos. Há coisas que não precisam de ser ditas.

Um olhar pode dizer aquilo que a boca não consegue.

E, quando duas pessoas se conhecem suficientemente bem, talvez até consigam conversar em silêncio.

Hoje tive os versos de António Aleixo na cabeça e a Lina no pensamento.

Duas coisas muito diferentes.

Mas ambas me fizeram pensar naquilo que as palavras conseguem fazer quando são verdadeiras.


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