Uma brincadeira de mau gosto

Sexta-feira, 30 de Setembro de 1977

Estou deveras aborrecido com o que se passou hoje.

Ainda não consegui tirar isto da cabeça e, quanto mais penso no assunto, mais estúpida me parece a ideia que tive.

Ontem o Manel falou-me num método para descobrir se uma rapariga era ou não pura. Disse-me que resultava. Não sei por que razão fiquei a pensar naquilo, mas hoje, estupidamente, decidi experimentar com a Lina.

Agora, depois de tudo ter acontecido, só consigo pensar na minha falta de juízo.

Não estávamos sós. Havia outras pessoas à nossa volta e, perante o lirismo de todos, ela corou. Foi precisamente esse momento que mais me ficou na cabeça.

Fiquei a olhar para ela e comecei a imaginar o que teria sentido por dentro.

Talvez vergonha.

Talvez indignação.

Talvez simplesmente surpresa por eu ter sido capaz de fazer uma coisa daquelas.

Não sei.

E é isso que me incomoda.

Não sei o que ela pensou.

Quando vim embora, trazia comigo uma sensação desagradável. A ideia que, antes de a pôr em prática, me parecera quase uma brincadeira, perdeu toda a graça no momento em que percebi que podia ter magoado ou constrangido a Lina.

Talvez seja fácil fazer uma coisa sem pensar nas consequências.

Mais difícil é ficar sozinho depois, quando já não há ninguém à nossa volta e começamos a recordar cada gesto, cada palavra e sobretudo a expressão da pessoa que estava diante de nós.

É essa expressão que não me sai da cabeça.

A cara dela.

O rubor.

Gostaria de saber o que aconteceu dentro dela naquele instante.

Gostaria sobretudo de poder voltar atrás e não ter feito aquilo.

Não sei se ela me levará a sério depois disto. Não sei se ficará zangada comigo. Não sei sequer se continuará a confiar em mim da mesma maneira.

E isso preocupa-me mais do que o próprio episódio.

Tenho pensado muito na Lina nos últimos dias. Tenho falado com ela sobre coisas que considero importantes, sobre o futuro e aquilo que cada um espera da vida. E depois, de repente, faço uma coisa tão infantil como esta.

Há uma enorme contradição entre aquilo que quero ser e aquilo que às vezes faço.

Quero que ela me veja como alguém em quem pode confiar.

Mas confiança não se pede. Conquista-se.

E hoje talvez tenha dado um passo na direcção contrária.

Fui embora desanimado.

Durante o caminho continuei a pensar no assunto, desejando encontrar uma maneira de reparar o que fiz. Talvez amanhã consiga falar com ela e dizer-lhe que aquilo não passou de uma brincadeira. Mas sei que dizer isso não apaga o que aconteceu.

As palavras são fáceis depois dos actos.

O que eu queria mesmo era que ela não tivesse ficado magoada.

E, sobretudo, que não tivesse ficado com uma ideia pior de mim.

Hoje aprendi uma coisa bastante simples.

Há brincadeiras que deixam de ter graça no momento em que percebemos que, para outra pessoa, não foram brincadeira nenhuma.

E essa talvez seja a parte de que mais me arrependo.



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