Aquilo Que Ainda Não Sei Sentir
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Quarta-feira, 13 de Julho de 1977
De manhã levantei-me cedo e fui com o meu pai ao liceu para me matricular. Quando lá chegámos, percebi que me tinha esquecido das fotografias e, mais uma vez, não consegui fazer a matrícula.
Parece que há coisas que não querem mesmo ser resolvidas à primeira.
Regressámos por Gondomar e fomos à Câmara tratar de um problema de casa. Quando cheguei a casa fiz ginástica e, depois do almoço, deitei-me no chão da sala a ouvir música.
Fiquei assim durante algum tempo, simplesmente a ouvir. Não tinha vontade de fazer outra coisa. Há momentos em que o melhor que posso fazer é não fazer nada. Deitar-me, pôr uma música e deixar apenas que o tempo passe.
Mais tarde fui com o Manel para a nossa sala de ensaios. Passámos umas horas a jogar ao jogo do banco e a divertir-nos. Não fizemos nada de especialmente importante, mas nem tudo o que fazemos precisa de ser importante. Às vezes basta estarmos juntos e deixarmos o tempo correr.
Depois das seis horas viemos embora.
À noite o Victor veio chamar-me a casa. Fomos para a sala de ensaios e, pouco depois, juntaram-se os outros colegas. Ensaiámos uma nova peça de teatro.
Mais tarde, as nossas colegas foram buscar-nos e acompanhámo-las a casa.
A Lina também estava com elas.
No caminho fui pensando nela.
Desde anteontem que há uma coisa diferente quando ela aparece. Não é propriamente a presença dela que mudou. Sou eu que agora sei qualquer coisa que antes não sabia. Sei que ela sente alguma coisa por mim e, a partir desse momento, cada encontro parece trazer consigo uma pergunta que eu não fiz.
Eu próprio já percebi que aquilo que sinto por ela não é o mesmo.
É amizade.
Parece-me simples dizer isto enquanto estou sozinho a escrever. Quando estou diante dela, talvez as coisas não sejam assim tão simples.
Não quero dizer-lhe directamente o que penso porque podia magoá-la. Também não quero que ela pense que existe da minha parte alguma coisa que não existe. Mas como se explica uma coisa destas sem transformar aquilo que existe entre duas pessoas?
Talvez seja melhor não mexer nisso.
Uma amizade não precisa de ser transformada noutra coisa só porque uma das pessoas sente mais. E talvez, neste momento, o mais honesto seja deixar que as coisas continuem como estão.
Tenho pensado muito sobre sentimentos nestes últimos tempos. Talvez porque passei tanto tempo a viver os meus que agora começo a reparar melhor nos dos outros.
É estranho.
Quando somos nós que sentimos, queremos respostas. Procuramos sinais, esperamos aproximações, damos importância a pequenas coisas. Quando percebemos que é outra pessoa que espera alguma coisa de nós, descobrimos que também temos uma responsabilidade.
Não quero alimentar uma esperança que não posso corresponder.
Mas também não quero destruir uma amizade por causa de uma coisa que talvez, com o tempo, encontre o seu próprio lugar.
Por enquanto, prefiro não mexer nisso.
Há sentimentos que ainda não sabemos bem o que são. E há outros que sabemos exactamente que não são.
O meu, por ela, parece-me simples.
É amizade.
Pelo menos hoje, é isso que sinto.
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