Um Susto que Não Correu Bem

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Quinta-feira, 14 de Julho de 1977

De manhã o Manel veio acordar-me a casa. Logo depois fizemos ginástica e fomos varrer a sala de ensaios.

Aquela sala começa a fazer parte dos nossos dias. É ali que nos encontramos, ensaiamos, jogamos, cantamos e inventamos coisas que, muitas vezes, só fazem sentido enquanto estamos juntos. Talvez seja por isso que gostamos tanto de estar lá. Não é apenas uma sala onde ensaiamos. É um lugar que passou a ser nosso.

À tarde o Manel voltou a minha casa. Tocámos, cantámos e depois lanchámos.

Foi então que nos surgiu uma ideia.

Queríamos assustar as raparigas à noite.

Começámos logo a preparar tudo. Fizemos um boneco eléctrico ligado a pilhas. A ideia pareceu-nos bastante boa e fomos trabalhando nela com o cuidado que se tem quando estamos a preparar uma coisa que nos diverte só de imaginar o resultado.

Depois o Manel foi comigo tirar umas fotografias e fomos ao DIFI buscar algum material de que precisávamos para o boneco.

Ao fim do dia tínhamos tudo preparado.

À noite o Victor e o Zé vieram chamar-me a casa. Fomos para a garagem. O Manel foi lá ter mais tarde e depois apareceu também o Zé Carlos.

Ensaiámos um bocado e fomos esperar as raparigas.

Quando finalmente chegaram, pusemos o nosso plano em prática.

O boneco resultou em cheio.

Talvez até demais.

O susto foi grande e, por alguns momentos, aquilo que tínhamos preparado como uma brincadeira deixou de me parecer tão engraçado. Uma coisa é imaginar as reacções dos outros quando estamos entre nós. Outra é vê-las acontecer diante dos nossos olhos.

O pai da Lina apanhou o Manel e o Zé Carlos.

De repente, a brincadeira ganhou um peso que não tínhamos previsto.

Tivemos de explicar o que estávamos a fazer e porque tínhamos preparado aquilo. Não havia grande coisa para explicar, afinal. Queríamos assustá-las e tínhamos conseguido. O problema era que, naquele momento, já não me parecia suficiente dizer isso.

Depois levámos as raparigas a casa e viemos embora.

No caminho fiquei a pensar no que tinha acontecido.

Há coisas que parecem muito diferentes quando passam da nossa cabeça para a realidade. Enquanto preparávamos o boneco, tudo era divertido. Pensávamos no susto, imaginávamos os gritos e ríamos antes mesmo de acontecer.

Depois aconteceu.

E já não era exactamente a mesma coisa.

Talvez seja essa uma das diferenças entre imaginar uma brincadeira e fazê-la. Na nossa cabeça controlamos tudo. Sabemos até onde queremos que as coisas cheguem. Na realidade, as pessoas reagem como entendem e podem levar aquilo muito mais longe do que tínhamos previsto.

Hoje aconteceu isso.

Queríamos assustá-las.

Conseguimos.

Mas talvez tenhamos conseguido mais do que queríamos.

Fiquei com a sensação de que uma brincadeira só é verdadeiramente uma brincadeira enquanto todos conseguem divertir-se com ela. Quando alguém deixa de achar graça, alguma coisa muda.

Não foi preciso ninguém explicar-nos isso.

Hoje percebemos.

E percebemos da maneira mais simples possível.

Fizemos a brincadeira e vimos o que ela podia provocar.


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