Um Olhar Baixou-se

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Sexta-feira, 15 de Julho de 1977

Depois de fazer ginástica, tomei o pequeno-almoço e fui para o DIFI. O Jorge fez-me companhia até eu vir embora.

À tarde o Manel veio chamar-me a casa. Fomos a casa do Victor e depois seguimos para a biblioteca. O Manel deixou-me ali durante algum tempo, porque foi a casa de uma tia, e eu vim pouco depois embora.

Quando cheguei a casa, o meu pai mandou-me ao fotógrafo revelar um rolo de fotografias.

Foi ao sair de casa que encontrei a Dila.

Quase de frente.

Foi um daqueles encontros que duram apenas o tempo de nos reconhecermos, mas que parecem ficar mais tempo do que deviam. Ela pareceu ficar embaraçada e baixou os olhos para o chão.

Por momentos, congelamos... Depois seguimos caminho

Não dissemos nada.

Talvez porque, às vezes, depois de certas coisas terem acontecido entre nós, já não seja fácil encontrar uma palavra que não pareça deslocada. Um simples «olá» pode dizer demasiado ou dizer coisa nenhuma.

Continuei o meu caminho.

Depois estive com o Manel e fui para a Academia.

No regresso, em S. Pedro, o Victor e o Zé esperavam-me. Vieram comigo até casa.

Depois de jantar fui com eles esperar as raparigas. Acompanhámo-las a casa e, mais tarde, os dois vieram trazer-me novamente a casa.

O dia acabou assim.

Mas eu fiquei a pensar naquele encontro com a Dila.

Foi apenas um instante. Um olhar que nem chegou verdadeiramente a acontecer porque ela baixou os olhos. E, no entanto, ficou comigo.

Talvez seja estranho como certas pessoas conseguem voltar à nossa memória sem fazerem nada para isso. Basta aparecerem de repente diante de nós, numa rua qualquer, para que durante alguns segundos regressem coisas que julgávamos já arrumadas.

Não sei o que ela terá pensado naquele momento.

Também não sei exactamente o que eu próprio senti.

Talvez não tenha sido nada.

Talvez tenha sido apenas a estranheza de encontrar alguém com quem já partilhei algo profundo e perceber que agora caminhamos em direcções diferentes.

Há uma espécie de silêncio próprio nestes encontros. Não é exactamente tristeza, nem saudade. É antes a consciência de que houve um tempo em que aquela pessoa fazia parte dos nossos dias e que agora já não faz. A vida continuou para ambos, mas por um instante as duas vidas voltam a cruzar-se.

E depois cada um seguiu novamente o seu caminho.

Agora, deitado e mesmo antes de desligar a luz, como num filme mudo, revejo tudo...

Encontro a Dila por acaso, quase à porta de casa. Ela baixa os olhos. Eu continuo a andar.

Não sei se algum de nós teria alguma coisa para dizer.

Talvez fosse melhor assim.

Há coisas que não precisam de ser reabertas para sabermos que existiram.

Segui caminho.

Ela também.

E entre nós ficaram novamente a rua, o silêncio e a distância.


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