O Anel

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Sábado, 16 de Julho de 1977

De manhã o Manel acordou-me muito cedo para fazermos ginástica.

Ainda estava com sono e não me apetecia nada levantar-me. Voltei a deitar-me e deixei-o fazer os exercícios sozinho. Mais tarde fiz eu a ginástica.

Depois fui ao DIFI buscar um suporte para uma lâmpada.

À tarde reunimo-nos eu, o Zé, o Manel, o Victor e o Zé Carlos. Ensaiámos três canções e uma peça de teatro. Depois estivemos na biblioteca e, mais tarde, fomos ensaiar para o coro da igreja.

Os dias começam a ficar cada vez mais ocupados. Há sempre qualquer coisa para fazer, alguém para encontrar ou algum lugar onde ir. Quando penso nos dias de há algumas semanas, noto como tudo mudou sem que eu tivesse propriamente decidido que mudaria.

Talvez seja isso que mais me surpreende.

Não estou a fazer planos para transformar a minha vida. Simplesmente vou aceitando aquilo que aparece e, quando dou por mim, tenho o dia cheio.

Antes de vir embora aconteceu uma coisa que me deixou a pensar.

A Lina ficou com o meu anel.

Foi apenas um pequeno gesto.

Nada que, visto de fora, pareça ter grande importância.

Mas eu reparei.

Talvez por aquilo que aconteceu nos últimos dias. Desde que percebi que ela gosta de mim, comecei a reparar em coisas que antes provavelmente me passariam despercebidas. Um olhar, uma palavra, uma aproximação. Agora qualquer pequeno gesto parece trazer consigo uma pergunta.

Até aqui tenho escrito que a Lina é apenas uma amiga.

Continuo a pensar assim.

Pelo menos é isso que sinto.

Mas talvez as coisas não sejam tão simples como eu gostaria que fossem. Não porque tenha começado a sentir alguma coisa por ela, mas porque agora existe entre nós uma coisa que antes não existia. Eu sei o que ela sente e ela sabe, provavelmente, que eu sei.

E isso muda a maneira como olhamos um para o outro.

Há gestos que não precisam de palavras. Talvez aquele tenha sido um deles.

Ou talvez não tenha significado absolutamente nada.

Não quero tirar conclusões precipitadas. Seria fácil pegar num gesto pequeno e transformá-lo numa coisa muito maior do que realmente foi. Talvez o anel tenha ficado simplesmente porque ela quis ficar com ele. Talvez tenha achado graça. Talvez tenha sido apenas um momento.

Por agora, guardo apenas o facto.

Ela ficou com o meu anel.

E eu dei por mim a pensar nisso durante o caminho para casa.

Jantei e fui ver um filme de karaté. Quando cheguei a casa ainda vi uma parte de outro filme.

Mas, antes de adormecer, voltei a lembrar-me do anel.

É estranho como uma coisa tão pequena pode ficar tanto tempo dentro da cabeça.

Talvez porque algumas coisas não tenham importância pelo que são.

Tenham importância pelo que nos fazem pensar.


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