O Primeiro Beijo
Domingo, 17 de Julho de 1977
Acordei muito cedo, para meu espanto.
Tomei banho enquanto o Manel fazia ginástica. Depois fiz eu os exercícios e ainda compus um secador que precisava de arranjo. Em seguida fui à missa.
À tarde o Victor e o Zé vieram chamar-me a casa. Fomos primeiro a casa da Lina buscá-la, juntamente com a irmã. Depois juntámo-nos ao grupo coral e seguimos para Fânzeres, onde havia um convívio.
A tarde passou depressa.
Houve canções, danças, teatro e brincadeiras. Mas, no meio de tudo isso, dei por mim quase sempre junto da Lina. Não me afastei dela. Nem ela de mim.
Talvez tenha sido aí que comecei a perceber que alguma coisa estava diferente.
Não era apenas o facto de ela gostar de mim. Isso eu já sabia. Era a maneira como eu próprio começava a procurar a companhia dela sem pensar muito nisso. Até há poucos dias eu podia dizer que ela era uma amiga e ficar por aí. Hoje já não me parece tão fácil.
No fim da tarde fomos cantar à igreja local.
Depois, um senhor que fazia anos de casado ofereceu um lanche a toda a gente. Comi pouco e bebi um pouco mais do que devia. A Lina segurou-me a mão para me ajudar.
Ficámos assim durante algum tempo.
Foi um gesto simples, mas naquele momento pareceu-me diferente. Talvez porque eu já vinha a reparar nela de outra maneira. Talvez porque, depois do que tinha acontecido nos últimos dias, já não conseguisse olhar para certas coisas como olhava antes.
Quando chegámos à paragem, esperámos pelo trólei.
Demorava.
Acabámos por decidir vir a pé.
Por vezes íamos isolados, outras vezes juntávamo-nos aos restantes. Acompanhámos uma rapariga até à igreja e depois fui com as outras colegas até onde era necessário.
A certa altura deixei-me ficar para trás.
Fiquei com a Lina.
E foi então que aconteceu.
Pela primeira vez beijei uma rapariga intimamente.
Não conto aquele beijo que dei há alguns anos a uma prima. Esse foi apenas uma espécie de treino, sem o significado que este teve.
Este foi diferente.
Foi um beijo de verdade.
Ainda agora tenho dificuldade em explicar o que senti. Talvez porque não tenha sido apenas o beijo. Foi tudo o que o antecedeu. O dia inteiro ao lado dela, as conversas, a mão dela na minha, aqueles momentos em que fomos ficando para trás dos outros e, sobretudo, a sensação de que nenhum dos dois tinha pressa de se afastar.
Quando finalmente cheguei a casa estava cansado.
Ainda vi televisão.
Mas o dia já não era o mesmo.
Até ontem escrevia que a Lina era apenas uma amiga. Hoje já não sei se consigo escrever isso da mesma maneira.
Alguma coisa aconteceu.
Não foi apenas o beijo.
Foi tê-la quase sempre junto de mim. Foi a maneira como me segurou a mão. Foram os momentos em que ficámos sozinhos. Foi a vontade que senti de continuar ao lado dela quando já não havia nenhuma razão para isso.
Talvez eu ainda não saiba o que chamar a isto.
E talvez nem precise de saber já.
Durante estes últimos dias tenho tentado perceber o que sinto, como se fosse possível encontrar uma palavra certa e, depois de a encontrar, tudo ficasse esclarecido.
Hoje percebi que não é assim.
Há coisas que primeiro acontecem e só depois começam a ser compreendidas.
Hoje aconteceu uma dessas coisas.
Atravessei uma porta.
E não sei ainda o que existe do outro lado.
Comentários
Enviar um comentário