Uma Noite que Não Esquecerei
Segunda-feira, 18 de Julho de 1977
De manhã, depois de fazer ginástica, li um pouco até o Manel chegar.
A tarde foi passada com as raparigas, o Victor, o Manel e o Zé Carlos. Depois juntaram-se mais alguns colegas e fomos todos para uma festa, a de Santa Justa.
Durante a tarde entretivemo-nos com alguns jogos. Mais tarde fomos cantar à missa de um morto. Confesso que aquilo me custou um pouco. Há qualquer coisa numa cerimónia destas que nos obriga a parar, mesmo quando não conhecemos bem a pessoa por quem estamos ali. Quando terminou, vim embora.
Jantei e voltei a sair para me encontrar com as raparigas.
Entretanto, o pai da Lina levou-as de táxi. Fomos então a casa do Manel chamá-lo. Quinze minutos depois estava connosco e seguimos todos para Santa Justa.
Demorámos cerca de meia hora a chegar.
Fomos passear.
A certa altura as raparigas deixaram-nos para irem andar de carrossel. Quando voltaram, vinham acompanhadas por um grupo de rapazes que não me agradou. Estive quase a meter-me numa briga com eles. Havia ali qualquer coisa que me irritava, talvez mais do que a situação justificava.
Acabei por me afastar.
Fiquei apenas com a Lina.
Como já se fazia tarde, decidimos regressar.
No caminho, como era de esperar, ficámos muitas vezes sozinhos.
E beijámo-nos.
Muitas vezes.
Hoje já não havia a hesitação de ontem. Ontem tudo era descoberta. O primeiro beijo tinha qualquer coisa de inesperado e, ao mesmo tempo, de difícil de compreender. Eu próprio ainda tentava perceber o que tinha acontecido.
Hoje foi diferente.
Já havia vontade.
Não era preciso procurar uma razão para ficarmos juntos. Quando os outros se afastavam, nós ficávamos. Quando aparecia um momento em que podíamos estar sozinhos, nenhum dos dois parecia ter pressa de o terminar.
Havia uma espécie de entendimento que não precisava de palavras.
E talvez tenha sido isso que mais me surpreendeu.
Mas a noite ainda não tinha terminado.
A certa altura o Victor teve uma crise de nervos. Ficámos parados durante perto de meia hora, sem saber muito bem o que fazer. Depois aconteceu uma segunda vez, já sempre em sentido descendente, e a duração foi menor.
À terceira vez o problema resolveu-se rapidamente.
Pensávamos que tinha terminado.
Mas ainda havia outra coisa.
Soubemos que o Victor trazia uma faca no bolso.
A partir desse momento ficámos todos mais cautelosos. A noite, que até então tinha sido feita de festa, passeios e beijos, ganhou de repente uma tensão completamente diferente.
Quando percebi que era preciso intervir, servi-me de um golpe de karaté para o desarmar e depois procurei acalmá-lo.
Levámos as raparigas a casa.
Telefonámos ao pai do Victor.
Depois viemos embora.
No regresso ainda comprei e comi pão quente.
Agora, deitado e a escrever, penso na quantidade de coisas que podem caber dentro de uma só noite.
Uma festa.
Uma missa.
Uma discussão que quase se transforma numa briga.
A Lina.
Beijos.
O Victor.
O medo.
A faca.
E, no fim, pão quente.
Se alguém me contasse uma noite destas, talvez pensasse que estava a exagerar. Mas foi precisamente assim que aconteceu.
E talvez seja isso que mais me impressiona.
Há poucos dias eu ainda escrevia que a Lina era apenas uma amiga. Depois veio o anel. Depois o primeiro beijo. E agora já não consigo olhar para aquilo como se fossem acontecimentos separados.
Alguma coisa se foi construindo entre nós, quase sem eu perceber.
Talvez tenha começado antes de eu próprio dar conta.
Talvez tenha começado quando descobri que ela gostava de mim. Ou talvez só tenha começado quando percebi que, afinal, também gostava de estar perto dela.
Hoje já não procuro apenas a companhia dos outros.
Procuro os momentos em que ficamos sozinhos.
E quando esses momentos acontecem, não quero que terminem.
Isso é novo para mim.
Ainda não sei onde isto me vai levar. Não sei se amanhã vou pensar da mesma maneira, nem sei sequer se aquilo que agora parece tão claro continuará a sê-lo daqui a alguns dias.
Mas há uma coisa que já não posso negar.
Alguma coisa mudou.
E desta vez não fui eu que a imaginei.
Aconteceu.
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