Azul

Terça-feira, 19 de Julho de 1977

De manhã, enquanto eu e o Manel fazíamos ginástica, fomos falando do que tinha acontecido na noite anterior e, principalmente, do Victor. A noite ainda estava demasiado próxima para podermos simplesmente deixá-la para trás. Havia coisas que ainda precisávamos de comentar, como se falar delas fosse uma maneira de as arrumar.

Ainda estávamos a falar disso quando o Victor apareceu com uma distensão muscular.

Mais tarde, já mais bem-disposto, mostrei-lhe alguns dos meus livros de karaté e emprestei-lhe dois. Depois fomos a casa do Manel.

À tarde, como o Manel não aparecia, deitei-me a descansar. Pouco depois apareceu, mas ia a casa de um tio, por isso voltei ao meu repouso.

Não demorou muito até um dos irmãos dele me chamar para ir a casa do Victor, onde os encontraria.

Quando lá cheguei vinha suado. A casa dele não fica propriamente perto e a subida também não ajuda.

Convidaram-me a acompanhá-los a uma endireita, a mesma que tinha tratado do meu pai. Aí então suei ainda mais. Além de ser a subir, era mais longe do que eu pensava.

No regresso parei em casa do Victor, mas vim logo embora e fui para a Academia.

O treino foi diferente.

Mais puxado.

Saí cansado, mas com uma razão para estar feliz.

Fui graduado em 5.º Kyu.

Cinto Azul.

Quando recebi a notícia, senti uma satisfação difícil de explicar. O cinto é apenas um pedaço de tecido, mas representa horas de treino, esforço e vontade de continuar. Talvez seja por isso que hoje me tenha sabido tão bem recebê-lo.

Quando cheguei à Covilhã, o Zé e o Victor já me esperavam.

Jantei e fui ter com as raparigas. Acompanhámo-las a casa. No fim, eu e a Lina despedimo-nos com um beijo.

Foi um gesto pequeno, sobretudo depois de tudo o que aconteceu ontem, mas talvez precisamente por isso tenha tido outro significado. Ontem houve descoberta, proximidade, vontade. Hoje havia uma espécie de naturalidade nova entre nós.

Agora, ao escrever, penso no dia.

Começou com a lembrança da noite anterior, que ainda está muito presente entre nós, e acabou com uma coisa completamente diferente, a minha nova graduação na Academia.

Parece-me que estou a avançar em várias direcções ao mesmo tempo.

Há os amigos.

Há a Academia.

Há o teatro.

Há a igreja.

E agora há a Lina.

São coisas diferentes e não sei se alguma delas terá importância daqui a muito tempo. Talvez algumas desapareçam. Talvez outras se tornem mais importantes do que imagino agora.

Mas, neste momento, todas fazem parte dos meus dias.

E talvez seja essa a mudança que tenho sentido.

Antes parecia que a minha vida estava concentrada em poucas coisas e, sobretudo, numa pessoa. Agora começo a descobrir que há espaço para outras presenças, outros interesses e outras experiências.

Não sei onde cada uma destas coisas me vai levar.

Ainda bem.

Talvez seja cedo demais para saber.

Por enquanto, quero simplesmente continuar a andar.

Hoje recebi um cinto azul.

E, pela primeira vez em muito tempo, sinto que não estou apenas a deixar os dias passar.

Estou a avançar com eles.


← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →


Comentários