Uma Nova Presença
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Terça-feira, 12 de Julho de 1977
De manhã o meu pai acordou-me para irmos ao Porto. A ida acabou por ficar adiada para amanhã, porque ele tinha de preencher um longo papel para a minha irmã. Aproveitei então para fazer ginástica e, mais tarde, apareceu o Manel.
Depois do almoço deitei-me a descansar. Levantei-me algum tempo depois e ocupei-me de algumas coisas em casa. Montei uma nova instalação eléctrica na despensa e depois fiz uma instalação sonora para o rádio-gravador. Gosto destes trabalhos porque me obrigam a concentrar-me numa coisa concreta. Enquanto mexo nos fios e procuro perceber onde cada ligação deve ficar, não tenho de pensar muito no resto.
Ao fim da tarde fui à feira com o Manel e outros colegas, de bicicleta. Antes de lá chegarmos encontrei a Ana Maria a irmã da Dila. Dissemos um olá e cada um seguiu o seu destino. Passeámos um pouco e depois fomos fazer ciclo-cross no monte.
Entre quedas dos nossos ciclistas e outras tentativas que não correram muito bem, acabámos por nos divertir bastante. Não era preciso muito para nos rirmos. Bastava uma queda mais aparatosa ou uma tentativa que acabasse de maneira diferente daquela que tínhamos imaginado.
Depois vim embora com o Manel. Mais tarde acompanhou-me até à paragem.
Pelo caminho encontrei a rapariga de quem ontem tinha descoberto gostar de mim.
A Lina.
Falei com ela durante algum tempo. Não houve nada de especial nessa conversa, mas senti que já não conseguia olhar para aquele encontro exactamente como olharia antes. Até ontem era apenas uma colega. Agora havia qualquer coisa que eu sabia e que mudava a maneira como a via, mesmo que eu não tivesse mudado a maneira como me sentia.
Depois fui para a Academia.
Quando o treino terminou, regressei a S. Pedro. Ao chegar à paragem encontrei o Victor, que me esperava. Acompanhou-me até casa.
Jantei e, mais tarde, fui ter com as nossas colegas. Acompanhámos uma delas a casa e depois vieram até à minha casa. Servi-lhes água.
A Lina pediu-me que a acompanhasse a casa.
Fui com ela.
Depois regressei.
Foi um dia cheio de coisas diferentes, como tantos destes últimos dias. Mas, apesar de tudo o que fiz, é a Lina que me fica mais presente quando agora penso no dia.
Ontem descobri que alguém gostava de mim.
Hoje já sei quem é.
É curioso como uma pessoa pode aparecer de repente dentro dos nossos dias e começar a ocupar um espaço que, até ao dia anterior, nem sequer existia. Não porque tenha acontecido alguma coisa entre nós, mas simplesmente porque passei a saber uma coisa que antes desconhecia.
E esse conhecimento muda qualquer coisa.
A Lina é, para mim, apenas uma amiga. Pelo menos é assim que a vejo agora. Não sinto mais do que isso e não quero fingir que sinto.
Talvez seja importante dizer isto a mim próprio.
Depois de tudo o que tenho vivido, não me apetece confundir as coisas. Uma pessoa gostar de mim não significa que eu tenha de gostar dela. Também não significa que tenha de me afastar. Significa apenas que existe um sentimento do outro lado que eu não esperava encontrar.
E talvez seja preciso algum cuidado com isso.
Não quero magoá-la, mas também não quero criar nela uma esperança que não corresponde ao que sinto.
Por enquanto, é apenas uma amizade.
E é assim que quero que fique.
Pelo menos é assim que penso hoje.
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