Quando Alguém Começa a Olhar para Mim

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Segunda-feira, 11 de Julho de 1977

De manhã, depois de fazer ginástica, fui com o meu pai à Terceira Conservatória, no Porto. Depois fomos tratar da minha matrícula no liceu. No entanto, como o meu pai ficou com os documentos e eu me esqueci de lhos pedir, acabei por não conseguir tratar de tudo e vim embora. Regressámos a casa.

Depois do almoço deitei-me e fiquei a ouvir música até às cinco horas. Precisava daquele tempo sossegado. Há dias em que não me apetece estar sempre a andar de um lado para o outro. Fiquei ali deitado, sem fazer grande coisa, a ouvir músicas que já conheço bem e que, talvez por isso mesmo, me deixam estar a pensar sem ter de pensar em nada de concreto.

Mais tarde fui passear com o Manel.

A noite começou quando o Zé e o Victor vieram chamar-me a casa. Fomos dar uma «pequena volta» e, depois das onze horas, encontrámo-nos com algumas colegas. Ficámos a conversar, andámos por aí e, mais tarde, acompanhámos uma delas a casa.

Foi durante esse pequeno passeio que aconteceu uma coisa que me deixou surpreendido.

Uma colega mostrou-se interessada por mim.

Ao princípio não tive a certeza. Havia coisas na maneira como falava e se comportava que me fizeram desconfiar, mas não queria tirar conclusões precipitadas. Procurei perceber melhor o que se estava a passar e acabei por verificar que era verdade.

Fiquei a pensar nisso.

É estranho descobrir que alguém gosta de nós. Quando somos nós que gostamos de alguém, sabemos onde está o sentimento, mesmo quando não sabemos o que fazer com ele. Pensamos na pessoa, esperamos por um encontro, damos importância a coisas pequenas e, muitas vezes, passamos demasiado tempo a tentar perceber aquilo que talvez ela esteja a pensar.

Mas quando descobrimos que é outra pessoa que olha para nós dessa maneira, tudo parece mudar de lugar.

Há uma certa satisfação, claro. Talvez até alguma vaidade. Seria mentira dizer o contrário. É agradável saber que alguém reparou em nós e que, entre tantas pessoas, houve alguém que começou a olhar de uma maneira diferente.

Mas também há surpresa.

Estava longe de pensar na possibilidade de alguém voltar a olhar para mim dessa forma. Até agora tenho estado demasiado ocupado com aquilo que sinto pelos outros para reparar naquilo que os outros possam sentir por mim. Talvez por isso esta descoberta me tenha apanhado desprevenido.

Não sei ainda o que isto significa.

Também não sei o que se espera de mim quando alguém gosta de mim. Não é uma coisa que se possa resolver simplesmente porque agora sei que existe. O sentimento pertence à outra pessoa e eu não posso decidir por ela aquilo que deve sentir.

Posso apenas reconhecer que aconteceu.

Quando chegou a altura de me despedir dos outros, servi a todos um copo de água. Depois regressaram cada um a sua casa.

Agora, enquanto escrevo, volto a pensar naquela conversa.

Talvez esteja a acontecer uma coisa curiosa comigo nestas últimas semanas. Tenho conhecido pessoas novas, tenho saído mais, tenho participado em coisas que antes não faziam parte dos meus dias e, ao mesmo tempo, começo a descobrir que também ocupo um lugar na vida dos outros.

Até há pouco tempo, eu estava quase sempre do outro lado.

Era eu que reparava numa pessoa.

Era eu que procurava sinais.

Era eu que ficava a pensar no significado de um gesto ou de uma palavra.

Agora descubro que também posso ser eu a provocar essas perguntas em alguém.

Não sei se estou preparado para isso.

Mas talvez não seja preciso estar.

Há coisas que começam sem nós as procurarmos. Esta pode ser uma delas.

E talvez seja essa a parte mais estranha de todas. Enquanto andamos preocupados com aquilo que queremos encontrar, há coisas que podem estar a acontecer precisamente à nossa volta sem que lhes prestemos atenção.

Hoje percebi que não sou apenas alguém que olha.

Também posso ser olhado.

E, de repente, isso fez-me ver os outros de uma maneira um pouco diferente.



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