Quando Tudo Parece Desfazer-se

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Domingo, 10 de Julho de 1977

De manhã o Zé veio acordar-me a casa. Levantei-me, fiz ginástica, tomei banho e fui ensaiar com os outros colegas a nossa peça de teatro.

Depois fomos cantar à missa e vim embora.

À tarde voltei novamente à casa do padre. Fui com algumas colegas assistir a um convívio do Partido Socialista, mas pouco depois resolvemos vir embora. Não ficámos com grande vontade de continuar por lá e acabámos por regressar.

Até às oito horas ficámos a jogar às cartas. A tarde passou depressa, entre conversas, brincadeiras e algumas partidas que fomos levando mais ou menos a sério. Às vezes discutíamos uma jogada, outras vezes ríamos de qualquer coisa e logo a seguir voltávamos ao jogo. Não havia nenhum programa especial, mas também não parecia fazer falta.

À noite voltámos a ensaiar.

Desta vez juntaram-se três raparigas ao grupo e foi aí que as coisas começaram a complicar-se. O que até então parecia relativamente simples deixou de o ser. Surgiram dificuldades, opiniões diferentes e pequenas coisas que começaram a atrapalhar o andamento do ensaio.

Durante algum tempo fiquei com a impressão de que aquilo que tínhamos feito até ali podia acabar naquele momento.

É curioso como uma coisa que parece estar encaminhada pode começar a desfazer-se tão depressa. Quando estamos a trabalhar em grupo, cada pessoa traz consigo a sua maneira de pensar, as suas vontades e também as suas manias. Enquanto todos estão de acordo, quase não damos por isso. Mas basta aparecer uma dificuldade para percebermos que afinal não estamos a trabalhar apenas com uma peça de teatro. Estamos a tentar juntar pessoas diferentes numa mesma coisa.

E isso não é tão fácil como parece.

Por momentos pensei que talvez fosse mesmo o fim daquele trabalho. Depois de tantos ensaios, tantas conversas e tanto tempo gasto na preparação, custava-me pensar que tudo pudesse ficar por ali por causa de pequenas divergências.

Felizmente, antes de virmos embora, conseguimos resolver tudo.

No fim ficou tudo arranjado.

Talvez o que aconteceu hoje me tenha feito pensar um pouco mais nas amizades e na maneira como as pessoas conseguem estar juntas. Quando somos muitos, é natural que nem todos pensem da mesma maneira. Se cada um quiser que as coisas sejam feitas exactamente à sua maneira, provavelmente nenhum grupo consegue durar muito tempo.

Às vezes é preciso ceder.

Outras vezes é preciso aceitar que a nossa ideia não é necessariamente a melhor. E há momentos em que talvez seja mais importante continuar juntos do que ter razão.

Não sei se já aprendi isso completamente. Provavelmente não.

Ainda tenho tendência para querer que as coisas sejam feitas como eu penso que devem ser feitas. Mas começo a perceber que estar com outras pessoas também significa aprender a lidar com aquilo que nelas é diferente de nós.

Talvez as amizades sejam um pouco assim.

Talvez os grupos também.

Não se constroem apenas quando tudo corre bem. É quando aparecem as dificuldades que começamos a perceber se existe realmente vontade de continuar.

Hoje, pelo menos, continuámos.

E amanhã logo veremos.


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