O Menino do Coro
Sábado, 9 de Julho de 1977
Hoje levantei-me mais cedo do que era costume. Fiz ginástica à pressa e fui com o meu pai para a praia. Ficámos lá até ao meio-dia e depois regressámos a casa.
À tarde vi um pouco de televisão antes de ir para casa do padre com alguns colegas. Passámos parte da tarde a ouvir música e, ao fim da tarde, ensaiámos com o coro da igreja.
Quando penso na maneira como tenho passado estes últimos dias, acho curioso como as coisas se foram compondo quase sem eu dar por isso. Há poucas semanas não me imaginava a passar as férias assim. Tinha a ideia de que os dias seriam muito mais iguais uns aos outros e que, depois das aulas, haveria pouco mais para fazer do que esperar pelo tempo passar. Afinal, tenho tido ensaios, música, teatro, igreja, amigos e cada vez mais coisas para ocupar o tempo.
O mais curioso é que não me sinto cansado dessa quantidade de coisas. Pelo contrário. Parece que comecei a gostar de ter sempre qualquer coisa marcada para mais tarde.
À noite eu, o Manel, o Zé, o Victor, o Zé Carlos e outro colega ensaiámos a nossa peça de teatro e duas canções. Ficámos nisso até às onze e meia e depois vim embora.
Cheguei a casa e ainda vi um filme.
E foi só quando fiquei sozinho, já no fim do dia, que pensei numa coisa que ainda me parece um pouco engraçada.
Comecei os ensaios no coro da igreja.
Agora já sou «menino do coro».
Escrevo isto quase a rir-me porque, se alguém me tivesse dito isto há algum tempo, provavelmente eu teria achado graça à ideia. Eu, que tantas vezes tenho opiniões tão diferentes das pessoas que vivem à minha volta, estou agora ali com elas, a cantar, a ensaiar e a participar numa coisa que não fazia parte dos meus planos.
Não sei se mudei de opinião sobre tudo aquilo em que penso. Não mudei.
Mas talvez esteja a perceber uma coisa que antes não percebia tão bem. Podemos estar com pessoas que pensam de maneira diferente de nós sem termos de transformar todas as diferenças numa distância. Posso não concordar com muitas coisas e, mesmo assim, gostar de estar ali. Posso cantar com aquelas pessoas sem ter de pensar que, por isso, passei a ser igual a elas.
Talvez seja até uma forma de conhecer melhor os outros. E, quem sabe, de perceber melhor a mim próprio.
Há algum tempo teria provavelmente recusado muitas destas coisas antes sequer de experimentar. Agora parece que tenho vontade de ver onde dão. Não porque tenha decidido mudar quem sou, mas porque começo a perceber que talvez ainda não conheça assim tão bem tudo aquilo de que sou capaz de gostar.
Também tenho reparado que esta maneira nova de viver os dias está a mudar a forma como os escrevo. Antes parecia-me suficiente dizer onde tinha estado e o que tinha feito. Agora há coisas que me fazem parar um pouco mais. Às vezes não sei sequer porque é que determinada coisa me ficou na cabeça, mas sei que quero escrevê-la.
Talvez seja isso que estou a começar a descobrir neste novo período. Não apenas outras pessoas ou outros lugares, mas uma maneira diferente de estar entre elas sem deixar de ser eu.
Ainda não sei muito bem o que estou à procura.
Sei apenas que tenho encontrado cada vez mais coisas que não procurava.
E, desta vez, em vez de passar ao lado, tenho tido vontade de entrar.
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