Entre o Silêncio e a Companhia
← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →
Sexta-feira, 8 de Julho de 1977
Depois da ginástica matinal com o Manel, ocupei-me de um dos meus patos, que estava ferido. Tratei dele e procurei deixá-lo o mais confortável possível. Fiquei algum tempo a tratar dele, preocupado em que não sofresse mais do que já estava a sofrer.
Depois fiquei por casa a ouvir música.
A tarde passou tranquila até o Manel chegar. Quis que o acompanhasse de bicicleta e fui com ele. Quando já estávamos de regresso, decidiu mudar de rumo e ir para outro lado. Desta vez não me apeteceu acompanhá-lo. Não tive vontade de continuar a andar sem saber bem para onde íamos e preferi voltar para casa.
Lanchei, ouvi mais um pouco de música e preparei-me para ir à Academia.
Depois do treino encontrei-me com o Zé e o Victor. Jantei à pressa e saí novamente com eles. Fomos ao encontro de algumas colegas e voltámos às brincadeiras das noites anteriores. Falámos de bruxas e espíritos e divertimo-nos a explorar o medo delas. Depois começámos com uma espécie de telepatia «forjada», inventando sinais e pequenas partidas que lhes davam a impressão de que conseguíamos adivinhar o que estavam a pensar.
Rimo-nos bastante.
À meia-noite, o Zé e o Victor acompanharam-me até casa.
Quando entrei, tive a sensação de que o dia tinha sido muito maior do que parecia quando começou. De manhã estava em casa a tratar de um pato ferido e, poucas horas depois, tinha passado a noite na rua, a rir e a brincar com os medos dos outros. Pelo meio houve música, bicicleta, Academia, conversas e pessoas diferentes.
Tenho reparado nisso ultimamente.
Quase todos os dias aparece alguém novo ou alguém com quem não estava habituado a passar tanto tempo. O Manel continua muito presente, mas já não é apenas com ele que passo os meus dias. Há o Zé, o Victor e outros colegas que começam a aparecer cada vez mais nas minhas tardes e nas minhas noites.
Talvez seja isto que está a mudar.
Não estou propriamente à procura de alguma coisa. Pelo menos não sei dizer o que procuro. Tenho simplesmente estado mais disponível para aquilo que aparece. Se alguém me convida para sair, vou. Se há um ensaio, apareço. Se combinamos um passeio, lá estou. E assim, sem ter feito nenhum plano para isso, os meus dias começam a ficar cheios de gente.
É curioso pensar nisto agora, porque durante muito tempo escrevi os meus dias de uma maneira bastante diferente. Escrevia porque fazia parte da rotina. Contava o que tinha feito, onde tinha ido, com quem tinha estado. Algumas coisas ficavam registadas, outras não. E talvez pareça, ao ler os primeiros tempos, que eu não sentia muitas coisas, que não pensava nelas ou que a minha vida era apenas aquilo que aparecia nas linhas.
Não era.
Eu sentia-as.
Vivia-as.
E talvez seja precisamente por isso que muitas delas não precisavam de ser escritas. Estavam a acontecer todos os dias. Havia pessoas com quem falar, coisas para viver, emoções que encontravam o seu lugar na própria vida. Quando uma pessoa está a viver uma coisa intensamente, nem sempre pensa em parar para a explicar num caderno.
Agora sinto uma diferença.
Tenho mais gente à minha volta, é verdade. Talvez até tenha mais vida social do que tinha há pouco tempo. Mas isso não significa que tenha alguém com quem partilhar tudo aquilo que me passa pela cabeça. Há pensamentos que aparecem e desaparecem sem eu dizer nada a ninguém. Há coisas que talvez nem soubesse como explicar se alguém me perguntasse directamente.
E é aqui que o diário começa a ser diferente para mim.
Talvez esteja a escrever mais porque preciso de falar.
Não é exactamente a mesma coisa, eu sei. O diário não responde, não dá a sua opinião e não me interrompe quando começo a complicar as coisas. Mas talvez seja justamente por isso que consigo escrever aqui aquilo que não digo a ninguém.
Posso contar o que aconteceu e depois ficar a pensar no que isso me fez sentir.
Posso mudar de ideias a meio de uma página.
Posso escrever uma coisa que talvez amanhã já veja de outra maneira.
E ninguém me obriga a ter uma resposta.
Talvez, sem eu ter decidido isso, este caderno esteja a deixar de ser apenas o lugar onde guardo os meus dias.
Está a tornar-se uma espécie de confidente.
É estranho escrever esta palavra, porque nunca pensei no diário dessa maneira. Durante muito tempo foi simplesmente uma rotina. Agora começo a perceber que talvez precise dele por outra razão.
Tenho pessoas à minha volta.
Tenho cada vez mais companhia.
Mas há coisas que continuam a ficar só comigo.
E, quando chega a noite e todos regressam a casa, ficam aqui.
Talvez seja por isso que hoje me apeteceu escrever tanto sobre um dia que, à primeira vista, não teve nada de extraordinário.
Comentários
Enviar um comentário