As palavras também constroem lugares

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Quinta-feira, 16 de Junho de 1977

Hoje fui para o liceu à hora do costume.

As aulas decorreram sem sobressaltos. A proximidade do fim do ano lectivo já se fazia sentir no ambiente. Os corredores pareciam menos tensos, as conversas mais demoradas e até os professores davam a impressão de abrandar o ritmo.

Quando terminaram as aulas almocei na cantina.

Enquanto comia, observei os grupos espalhados pelo refeitório. Havia risos, planos para as férias, discussões sobre exames e brincadeiras que dentro de poucas semanas deixariam de fazer parte dos nossos dias.

É curioso como só damos importância às rotinas quando começamos a perceber que estão prestes a acabar.

Regressei a casa.

Estudei durante algum tempo. Não muito. O suficiente para sentir que não desperdiçava completamente a tarde antes de sair de novo.

Depois peguei na pasta e fui para o DIFI.

Encontravam-se já alguns colegas a trabalhar.

Em cima da mesa estavam folhas soltas, apontamentos, rascunhos e exemplares do primeiro número do Espaço Livre.

Falámos do que podia ser melhorado.

Uns sugeriam novos temas.

Outros corrigiam pequenas gralhas.

Havia quem pensasse na apresentação, quem discutisse títulos e quem procurasse assuntos para preencher as páginas seguintes.

Sem darmos por isso, começámos a preparar o segundo número.

Gosto daquele ambiente.

Há qualquer coisa de especial em ver uma ideia nascer primeiro numa conversa, depois num papel rabiscado e, por fim, transformada em algo que outras pessoas poderão ler.

Enquanto escrevia um pequeno texto para o jornal, ocorreu-me que as palavras têm uma estranha capacidade de permanecer.

As conversas acabam.

As tardes passam.

As pessoas seguem caminhos diferentes.

Mas uma folha escrita continua ali, à espera de voltar a ser lida.

Ao fim da tarde arrumámos o material e regressámos a casa.

Jantei com a família e mais tarde vi um pouco de televisão.

Agora, enquanto escrevo estas linhas, reparo que passo cada vez mais tempo rodeado de papel.

Livros.

Apontamentos.

Jornais.

Versos.

Talvez seja apenas uma coincidência.

Ou talvez, sem me aperceber, esteja a procurar nas palavras um lugar onde algumas coisas possam permanecer quando tudo o resto parece mudar.


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