Quando o acaso muda de direcção

← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →

Sexta-feira, 17 de Junho de 1977

Hoje fui para o liceu de boleia com o pai do Manel.

A minha irmã seguiu connosco até ao emprego e eu continuei viagem até ao liceu. É curioso como um pequeno gesto de gentileza consegue alterar o ritmo habitual de uma manhã. Em vez da corrida para o trólei, houve tempo para olhar pela janela e ver a cidade acordar.

Passei praticamente toda a manhã com o Manel.

Conversámos nos intervalos, comentámos pequenos episódios das aulas e deixámos o tempo correr sem grandes preocupações.

Antes de vir embora, o Paulo entregou-me o dinheiro das lentes.

Fiquei satisfeito por finalmente resolvermos esse assunto. Desde que os óculos se partiram, tudo parecera mais incómodo do que realmente era.

Cheguei a casa cansado.

Deitei-me durante algum tempo e acabei por adormecer.

Quando acordei, preparei-me para ir para a Academia.

O treino decorreu normalmente.

O esforço físico continua a fazer-me bem. Durante algum tempo, enquanto me concentro em cada movimento, o resto do mundo parece afastar-se.

No regresso a casa deparei com um acidente.

Abrandei o passo por instantes. Algumas pessoas já se encontravam à volta do local e limitei-me a seguir caminho.

Perto de casa encontrei o Manel.

Fez-me companhia até chegarmos.

Conversámos sobre coisas sem importância, talvez porque nenhum de nós sentisse necessidade de encher o caminho com grandes assuntos.

Quando entrei em casa e me sentei para jantar, o meu pai chegou pouco depois.

Trazia o rosto cansado e a roupa marcada pelo pó da estrada.

Foi então que soubemos que o acidente que eu vira, sem lhe prestar grande atenção, tinha sido precisamente o dele.

Durante alguns segundos fiquei sem palavras.

Olhei para ele quase como se precisasse de confirmar que estava realmente ali.

Felizmente, os estragos maiores foram na motorizada.

Ele próprio procurou tranquilizar-nos, dizendo que tinha sido apenas um susto e algumas amolgadelas.

Respirei de alívio.

Só depois percebi como bastara um instante para transformar um acidente qualquer num assunto da nossa própria casa.

Acabei de jantar.

O Manel ainda ficou um pouco connosco e depois despediu-se.

Agora, enquanto escrevo estas linhas, penso na facilidade com que olhamos para o sofrimento dos outros quando acreditamos que não nos diz respeito.

Hoje passei por aquele acidente quase sem abrandar o passo.

Nunca imaginei que, poucos minutos depois, descobriria que o homem envolvido era o meu pai.

Talvez seja essa uma das maiores ilusões da vida.

Pensamos sempre que as notícias pertencem aos outros... até ao momento em que batem à nossa porta.


← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →


Comentários