O peso dos dias iguais

← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →

Sábado, 18 de Junho de 1977

Hoje levantei-me cedo.

O meu pai acordou mais dorido do que imaginara na véspera. O acidente não lhe provocara apenas algumas amolgadelas na motorizada, o corpo começava agora a revelar o verdadeiro peso da queda.

Acompanhei-o a um endireita.

Durante o caminho caminhámos devagar. De vez em quando olhava para ele sem dizer nada. Sempre me habituara a vê-lo forte, capaz de resolver qualquer problema. Naquela manhã parecia apenas um homem cansado, a tentar disfarçar a dor para não preocupar ninguém.

Quando saímos, vinha visivelmente mais aliviado.

Regressámos a pé.

Falámos pouco.

Havia momentos em que o silêncio bastava para fazer companhia.

Depois do almoço encontrei-me com um colega e seguimos para o DIFI.

Passei ali toda a tarde.

Havia muito trabalho para fazer. Transportámos material, mudámos móveis, organizámos papéis e preparámos algumas coisas de que o centro precisava.

Ao fim de algumas horas tinha as mãos cheias de calos.

Sorri ao olhar para elas.

Eram pequenos sinais de um dia bem preenchido.

Ao fim da tarde regressei a casa.

Jantei sem grande pressa e, mais tarde, fui com o Manel para o ensaio das marchas.

Chegámos cedo.

Como ainda não estava quase ninguém, fomos esperar a Lucinda.

Vimo-la aproximar-se ao longe.

Quando passou por nós, limitou-se a seguir caminho como se não nos tivesse visto.

Ou talvez tivesse visto.

E preferisse fingir que não.

Não fiz qualquer comentário.

O Manel também não.

Seguimos para o ensaio.

Durante toda a noite senti-me estranhamente distante.

As músicas sucediam-se, as pessoas conversavam, riam, preparavam as marchas, mas eu permanecia ali apenas de corpo presente.

Nem sequer sabia explicar a razão daquele aborrecimento.

Talvez não existisse uma razão.

Talvez fosse apenas o cansaço de trazer comigo tantas coisas que nunca chegavam a encontrar um verdadeiro lugar.

No regresso a casa já vinha mais bem-disposto.

A frescura da noite fazia bem depois de um dia tão comprido.

Ainda vi um pouco de televisão antes de me sentar aqui a escrever.

Agora, enquanto revejo o dia, ocorre-me uma ideia que me acompanha há algum tempo.

Tenho ocupado todos os dias.

Vou ao liceu.

Treino.

Trabalho no DIFI.

Leio.

Escrevo.

Saio com o Manel.

Conheço pessoas novas.

Faço tudo aquilo que, há poucas semanas, me parecia suficiente para esquecer.

E, no entanto, há qualquer coisa dentro de mim que continua parada.

Começo a perceber que fugir da dor não é o mesmo que deixá-la para trás.

Talvez chegue o momento em que tenha de deixar de caminhar apenas para a esquecer... e começar finalmente a caminhar para descobrir quem sou depois dela.


← Folha Anterior | Índice | Folha Seguinte →


Comentários