O eco dos caminhos percorridos
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Domingo, 19 de Junho de 1977
Hoje levantei-me cedo.
Tomei banho e, como tinha combinado com o Manel, fui assistir ao ensaio do grupo coral da igreja.
Ainda há poucos dias me parecia estranho estar ali. Continuo sem partilhar muitas das ideias que ali se vivem, mas começo a descobrir que as pessoas são sempre mais importantes do que os lugares onde se encontram.
O ensaio terminou perto da hora do almoço.
Regressámos juntos, conversando sem grande pressa. O Manel falava naturalmente das actividades dos dias seguintes. Eu ouvia-o mais do que respondia.
Depois de almoçar esperei um pouco mais do que era costume antes de sair.
Acabei por ir para o DIFI.
Permaneci lá durante algum tempo, mas o entusiasmo parecia ter ficado em casa. Os colegas trabalhavam, conversavam e faziam planos para as semanas seguintes. Eu procurava acompanhar o ritmo deles, mas sentia-me distante, como se uma parte de mim observasse tudo de fora.
Ao fim de algum tempo despedi-me e regressei.
Cheguei a casa e deitei-me.
Não dormi logo.
Fiquei apenas de olhos fechados, deixando que o silêncio ocupasse o lugar dos pensamentos.
Levantei-me mais tarde para jantar.
Depois vi um pouco de televisão.
Agora, enquanto escrevo, sinto que estes últimos meses me mudaram mais do que todos os anos anteriores.
Quando comecei este diário via o mundo como um lugar cheio de caminhos por descobrir. Bastava andar para a frente e tudo parecia possível.
Entretanto descobri que crescer não consiste apenas em acumular dias.
Consiste em aceitar que cada escolha deixa uma marca.
Há alegrias que nos acompanham durante muito tempo.
Há tristezas que parecem não acabar nunca.
E há erros que, mesmo quando já pertencem ao passado, continuam a viver dentro de nós como pequenas cicatrizes.
Não doem da mesma maneira todos os dias.
Mas lembram-nos quem fomos quando as fizemos.
Olho para trás e vejo tantos trilhos percorridos.
Amizades que nasceram quase sem dar por isso.
Descobertas.
Entusiasmos.
Projectos.
Primeiros sonhos.
Primeiro amor.
Também vejo silêncios, despedidas e momentos em que o orgulho falou mais alto do que o coração.
Talvez crescer seja exactamente isto.
Continuar a caminhar levando connosco tudo aquilo que não podemos mudar.
Nem para esquecer.
Nem para reviver.
Apenas para compreender.
Tenho a sensação de que alguma coisa está prestes a terminar.
Não sei explicar porquê.
Os dias continuam a suceder-se como sempre.
As ruas são as mesmas.
As pessoas são as mesmas.
E, no entanto, sinto que os meus passos já não ecoam no mesmo caminho.
Talvez a vida seja feita destes instantes quase invisíveis.
Momentos em que um capítulo termina sem fazer ruído.
E outro começa a escrever-se antes mesmo de nos apercebermos disso.
Fim do Volume III
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