Quando o destino bate de mansinho
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Quarta-feira, 15 de Junho de 1977
Hoje a minha turma foi em passeio.
Não me apeteceu ir.
Levantei-me mais tarde do que era costume e fui apenas ao liceu levantar o subsídio do NASE.
Não demorei muito.
Voltei logo para casa.
Como não tinha nada de urgente para fazer, aproveitei a manhã para passar a limpo a gravação do programa sobre OVNI's.
Foi um trabalho demorado, mas agradável. Enquanto escrevia, dava por mim a recordar passagens que me tinham despertado a curiosidade quando as ouvira.
Depois almocei.
Ao princípio da tarde fui para o DIFI.
Esperei por um colega e, quando chegou, seguimos para o Porto.
Passei pela Electro-Povo antes de ir levantar finalmente os óculos.
Voltar a colocá-los foi como recuperar um pequeno hábito de que já sentia falta.
Depois fomos até à Feira do Livro.
Percorri demoradamente as bancas e acabei por comprar um livro.
Gostava daquele ambiente.
Havia sempre qualquer coisa de especial em passear por entre tantos livros, como se cada um escondesse um mundo diferente.
Antes de regressarmos, ainda fotocopiei o primeiro número do Espaço Livre, o jornal do grupo.
Quando voltámos ao DIFI, juntámos todas as folhas, agrafámo-las e ficámos algum tempo a olhar para o resultado.
Era um jornal simples.
Mas era nosso.
Ao fim da tarde regressei a casa.
Jantei cedo e preparava-me para fazer o treino habitual quando apareceu o Manel.
— Anda comigo.
Nem sequer perguntou se eu queria.
Limitou-se a dizê-lo com aquele ar decidido que tão bem conheço.
Acabei por acompanhá-lo aos ensaios das marchas.
Mal chegámos percebi que havia uma razão para tanta insistência.
Encontrava-se lá uma das raparigas que ele me apresentara no domingo.
Durante os primeiros minutos limitei-me a observá-la de longe.
Não era timidez apenas.
Era o receio de iniciar uma conversa que morresse ao fim de duas frases.
Foi o Manel quem acabou por desfazer a distância.
Aproximou-nos discretamente e, pouco depois, ficámos os dois a conversar.
Falámos primeiro de coisas sem importância.
Depois contei-lhe o que era o DIFI, as actividades que desenvolvíamos e os projectos que tínhamos.
Ouviu-me com verdadeira atenção.
Fez perguntas.
Sorriu várias vezes.
Sem dar por isso, passou quase uma hora.
Quando chegou a altura de ela regressar a casa, acompanhei-a parte do caminho.
Despedi-me com simplicidade.
Agora, enquanto escrevo estas linhas, penso que hoje aconteceu uma coisa curiosa.
Há poucas semanas acreditava que nunca mais conseguiria conversar naturalmente com uma rapariga.
Hoje consegui.
Não porque tivesse esquecido a Dila.
Isso ainda não aconteceu.
Mas porque começo finalmente a perceber que o coração pode continuar ferido... e, mesmo assim, não deixar de escutar o mundo quando alguém lhe bate, devagarinho, à porta.
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