Canções Gravadas Entre Risos

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Quinta-feira, 23 de Junho de 1977

Hoje levantei-me um pouco mais tarde.

Era véspera de São João e o ambiente parecia já diferente. Tomei o pequeno-almoço e, como ainda havia tempo antes do almoço, sentei-me a ler durante algum tempo.

A leitura continua a ser um dos lugares onde encontro maior tranquilidade. Há livros que nos prendem pela história. Outros fazem-nos parar para pensar. E há ainda aqueles que apenas nos fazem boa companhia.

Depois do almoço a minha mãe foi à feira.

Fiquei em casa e, pouco depois, apareceu o Manel.

Passámos a tarde juntos.

Lembrámo-nos de gravar algumas canções. A ideia pareceu-nos excelente enquanto a imaginávamos. Quando começámos a ouvir o resultado, percebemos imediatamente que nenhum de nós tinha grande futuro como cantor.

Rimo-nos tanto das gravações que acabámos por repetir algumas músicas apenas para ver quem desafinava mais.

Se alguém as ouvisse hoje, talvez não encontrasse nelas qualidade nenhuma.

Nós encontrámos uma tarde inteira de boa disposição.

Quando a minha mãe regressou da feira, ainda fomos dar um pequeno passeio. Voltámos depois a minha casa, onde lanchamos.

Mais tarde pegámos nos flautins e estivemos algum tempo a tocar. Nem sempre acertávamos no mesmo andamento, mas isso pouco importava. O prazer estava muito mais em estarmos juntos do que na perfeição das notas.

Ao fim da tarde o Manel despediu-se e foi para casa.

Jantei com a família.

Resolvi escrever o diário mais cedo do que era habitual.

Esta noite é noite de São João.

Ainda não sei se vou sair. Tudo depende do Manel. Se ele for, talvez o acompanhe. Caso contrário, ficarei por casa.

Enquanto escrevo estas linhas, ocorre-me que há amizades que transformam as coisas mais simples em boas recordações.

Uma tarde passada a cantar mal, a rir das nossas próprias figuras ou a tocar um flautim sem grande jeito dificilmente ficará para a história.

Mas talvez a felicidade nunca tenha ambicionado isso.

Talvez baste existir, discreta, escondida dentro daqueles momentos que, enquanto acontecem, parecem não ter importância nenhuma.


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