Carta 2
11 de Agosto de 2026
Olá Dila,
Quero falar-te das personagens principais do “Diários da Adolescência”, A Dila e o António, na fase primordial em que se conheceram.
António, naquele primeiro dia era um miúdo sem características especiais que o distinguissem dos demais miúdos da sua idade. O “Dia Zero” é revelador do seu estatuto de adolescente sem preocupações. Ele brincava nesse dia, desmontando pedras coloridas de uma escova da roupa, às escondidas de sua mãe, para construir um ceptro como os dos reis do Egipto. Vira isso num filme na televisão, que nem sequer era a cores. Mas a sua imaginação, nessa época, já era grande.
O seu desassossego começou quando conheceu uma menina, dois anos mais nova, ele tinha quinze anos então. Esse dia provocou no António, algo que ele não sabia o que era nem compreendia o “formigueiro” que o havia tomado.
Quando viu a Dila pela primeira vez foi tomado por uma emoção e por sensações que até então desconhecia. Quando ele saíra como o seu amigo Manel era um miúdo que ia apanhar umas canas, mas quando voltou, o caminho já não foi o mesmo. O mundo e o universo parecem tere conspirado para mudar do avesso a sua existência. Algo tinha mudado.
Mas chega de falar de António. A Dila surge como uma personagem desconhecida cuja aparição no mundo de António o transtorna de forma definitiva. Acredito que ela seguiu com a sua meninice e nada passou de um momento.
Ou será que não? A visita seguinte de Manel a casa da Dila parece ter confirmado o que os astros haviam destinado a ambos. Manel revela a António a conversa que tivera com a Dila. Ela fizera perguntas: “Quem ele era?”, “Qual era o seu liceu”, entre outras. Definitivamente, António ao saber destas questões levantadas por aquela menina que reparara nele transformaram-na não na menina que era, mas no alvo central das suas atenções.
Aquela atracção incompreensível pareceu um íman que os atraía um para o outro. As impressões iniciais de António é que a Dila era inacessível. Mas a verdade é que ele não sabia o que fazer perante a presença dela. Num determinado momento sentiu ciúmes. O que era aquilo que o estava a tomar. Noutro sentiu vergonha, mas na generalidade era embaraço por não saber o que fazer.
A Dila, apesar de mais nova, sabia como se comportar e ao mesmo tempo como gerir “aquilo” que os atraía. Estas são suposições de António nos dias de hoje. Daí o encantamento que ele vivenciava naqueles tempos tão distantes.
Hoje a comunicação seria simples. Os adolescentes trocariam sms e a vida estaria mais presente. Naquele tempo, o tempo era regulado não em segundos, mas em batidas do coração.
A Dila foi sempre um mistério para António. Será que ela correspondia realmente ás suas emoções evidenciadas pela sua incapacidade de comunicar? Será que a Dila partilhava dos mesmos calafrios? Será que a Dila compreendia o que António sentia por ela naquele tempo? Será?
Sabes Dila, ao fim de tantos anos, depois de ler o que o António adolescente escreveu, compreendo a pureza dos seus sentimentos. Por isso me pergunto se a Dila adolescente também nutriu aquelas emoções tão intensas?
Fico-me pela pergunta…
Um amigo do passado... no presente,
António
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