Carta 3
13 de Agosto de 2026
Olá Dila,
O que é que muda com o Volume IV?
O diário não se torna mais íntimo simplesmente porque António decidiu escrever de maneira mais elaborada. Torna-se mais íntimo porque mudou a relação que ele próprio tem com o diário.
Nos primeiros tempos, ele escrevia porque a escrita fazia parte da rotina. E isso explica uma coisa que pode parecer estranha, havia emoções intensas na vida dele, mas muitas vezes elas quase não aparecem no papel. Não significa que não as sentisse. Significa que as estava a viver.
Quando uma pessoa tem alguém com quem falar, nem sempre sente necessidade de escrever aquilo que sente. A emoção sai pela conversa, pelo encontro, pelo olhar, pelo conflito, pela presença do outro. O diário pode então ficar reduzido ao registo dos acontecimentos.
Agora a situação é diferente.
António atravessa uma fase em que tem cada vez mais coisas para viver, mas não tem necessariamente com quem partilhar aquilo que se passa dentro dele. E é nesse espaço que o diário muda de função.
Deixa de ser apenas o lugar onde guarda o dia.
Passa a ser o lugar onde António pode falar.
E isso torna o diário quase uma personagem. Um confidente silencioso que não responde, não julga e não interrompe. António pode escrever-lhe coisas que não diria a ninguém.
Isso é literariamente muito rico porque explica a evolução da escrita sem parecer uma decisão do autor. A escrita muda porque a necessidade de escrever mudou.
E há uma nuance que gosto particularmente, António pode perceber que, afinal, talvez sempre tivesse tido sentimentos e emoções que não aparecem nos primeiros volumes. Simplesmente não sentia necessidade de os pôr no papel porque estavam a ser vividos no próprio momento.
Agora, quando chega a noite, há coisas que ficam sem destinatário.
E então escreve.
Isso também permite manter a coerência com os volumes anteriores. Não estou a dizer que «antes António não tinha emoções». Estou a dizer exactamente o contrário: tinha-as, vivia-as intensamente, mas não precisava de as transformar em palavras.
Agora precisa.
E é essa necessidade que dá origem à nova voz.
António começa por estranhar a vontade de escrever tanto sobre um dia aparentemente banal e, a partir daí, perceber que já não escreve exactamente pela mesma razão.
Acho que este é um daqueles momentos em que devo deixar António falar consigo próprio. E o mais bonito é que, ao falar com o diário, ele está também, sem saber, a começar a falar connosco.
Um amigo do passado... no presente,
António
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