Carta 4
14 de Agosto de 2026
Olá Dila,
Hoje escrevo-te com o pulso trémulo, sentindo o peso inquieto deste quarto volume nas minhas mãos. Sinto-me desconfortável com o rumo que estas páginas tomam, como se o passado se recusasse a ficar sepultado no silêncio dos anos.
Há cinquenta longos invernos, o António adolescente feriu-te com uma cegueira irreflectida, um gesto leviano de que se penitenciou ao longo de toda a sua vida. Sei bem que nenhuma palavra de hoje tem o poder de apagar a sombra desse instante. No entanto, ao transcrever este diário para a veste de um romance, temo tocar em feridas que a Dila de hoje talvez prefira intocadas.
Este volume encerra uma tempestade. Começa de forma épica, avassaladora, mas a sua conclusão rasga o peito. Nele, o António de outrora cruza-se com outra alma que se lhe entrega. Cauteloso, ferido pelo medo de voltar a perder o chão, ele resiste. Se voltarmos atrás, àqueles dias em que a felicidade cabia inteira ao teu lado, ele pouco pedia à vida. Bastava-lhe a tua presença para que o mundo fizesse sentido. Lembras-te de quando os nossos dedos finalmente se entrelaçaram no passeio? Para ele, aquele segundo foi o cume do universo; nada mais faltava. Mas ruiu. E embora tenha combatido a frustração, bastava-lhe saber que existias para continuar a sonhar. O sonho dele eras tu, apenas tu, no teu sorriso, na tua ausência e na tua graça. Tu eras o seu mundo — um mundo que desmoronou por culpa de uma interpretação apressada, de um passo em falso que ele nunca, em tempo algum, conseguiu perdoar a si mesmo.
Pergunto-me, com o coração apertado: onde reside este desconforto? Porque tremo ao revisitar o que já lá vai? A verdade nua é que o António de hoje nunca se perdoou pela dor que julgou ter infligido àquela rapariga que ele idolatrava como a uma deusa.
Temo que as páginas que se seguem a esse abismo possam ferir a sensibilidade da mulher que és hoje. No início deste Volume IV, há uma indiferença defensiva perante o afecto alheio; depois, o terror de voltar a sofrer e de magoar quem se aproxima. Mas a vida, obstinada, conduz-nos por labirintos imprevistos. Ele acaba por descobrir, nessa nova proximidade, um abrigo que nunca antes conhecera. Cercado por um carinho terno e por um conforto físico que o desarmam, o jovem António perdeu-se de si próprio, arrebatado por um fogo que desconhecia habitar no seu peito. Aquilo a que chamou amor e paixão revelou-se uma força indomável, um feitiço definitivo que o prendeu para além da razão.
Preciso de fazer uma pausa, de fechar os olhos e respirar fundo, porque a confissão inteira ainda pulsa por dizer.
Sabes, Dila? Não quero — e recuso-me a pensar nisso — que este volume te traga uma mágoa tal que te afaste dos livros que ainda hão-de vir. Tu foste o sol e a âncora daquele adolescente; foste tu quem o obrigou a verter a alma para o papel, para que a memória não se desvanecesse na neblina do tempo. Foi a Dila dos nossos tempos de liceu que o fez desabrochar, despertando nele a paixão que moldou a sua alma e a sua espiritualidade.
Se nos primeiros três volumes foste o centro absoluto do seu universo, decerto saberás que os cinco volumes seguintes continuam a ser, no fundo, inspirados pela mesma musa que ele, por infelicidade, deixou escapar para longe.
Por isso, peço-te com toda a ternura: sê paciente comigo e com estas páginas. Este volume pode ferir na sua crueza romanceada, mas traz na raiz a verdade mais profunda do que fomos.
Para que o meu coração descanse, deixa-me um sinal, qualquer palavra tua, para que eu saiba que chegaste até aqui e que continuo a ter-te comigo.
Um amigo do passado... no presente,
António
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